Vivemos cercados por vozes que exigem respostas imediatas. Opiniões prontas, certezas inflamadas e julgamentos apressados disputam nossa atenção como se pensar fosse perda de tempo. Nesse cenário, não ser rápido em acreditar — nem em duvidar — torna-se um gesto quase subversivo. É a recusa tanto da ingenuidade quanto do cinismo.
A crença precipitada entrega o pensamento à comodidade: aceitar algo apenas porque foi dito com convicção, repetido muitas vezes ou defendido por quem fala mais alto. A dúvida automática, por outro lado, pode ser apenas o outro lado da mesma moeda: negar tudo sem examinar nada, desconfiar por princípio, usar o ceticismo como escudo para não se comprometer com a verdade. Em ambos os casos, o pensamento é substituído por reflexos.
Pensar antes de decidir é um ato de inteligência, mas também de coragem. Exige silêncio em meio ao ruído, tempo em uma época que idolatra a pressa. Pensar implica reconhecer a complexidade do mundo, admitir que a realidade raramente cabe em frases curtas ou em posições absolutas. É aceitar que a verdade, muitas vezes, se constrói no intervalo entre o “sim” fácil e o “não” impulsivo.
Seguir uma opinião insensata é abdicar da própria responsabilidade intelectual. Quando terceirizamos o pensamento — seja a um líder, a um grupo ou a uma ideologia — abrimos mão da autonomia e passamos a repetir discursos que não nos atravessaram de fato. A insensatez costuma vir disfarçada de certeza absoluta, de respostas simples para problemas complexos. Por isso seduz. Por isso também destrói.
Os extremos são perigosos porque simplificam o humano. Em um mundo polarizado, o outro deixa de ser alguém para se tornar um inimigo ou um rótulo. Não há escuta, apenas confronto. Não há reflexão, apenas defesa. Os extremos exigem fidelidade cega e punem a dúvida, como se pensar fosse traição. Mas é justamente aí que mora o risco: quando pensar se torna proibido, a violência — simbólica ou real — encontra terreno fértil.
Manter-se no exercício do equilíbrio não é ser neutro ou indiferente. É escolher a lucidez. É reconhecer que a verdade não pertence a um lado, mas se revela na análise, na escuta e na disposição de rever posições. Em tempos de polarização, pensar é um ato ético. Um gesto de resistência contra a manipulação e a pressa.
Não acreditar rápido demais, nem duvidar por impulso, é preservar o espaço onde o pensamento acontece. E talvez seja nesse espaço — incômodo, silencioso e exigente — que ainda possamos encontrar alguma forma de sabedoria.
Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense

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