terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Um Deus sábio que me criou

    Existe uma serenidade quase escandalosa escondida na ideia de um Deus sábio que me criou. Ela começa com um reconhecimento desconfortável: se existe um Deus com sabedoria bastante para conceber a complexidade de uma consciência como a minha — cheia de contradições, desejos, medos e lampejos de lucidez — e ainda sustentar um mundo vasto, caótico, belo e brutal como este, então a lógica do abandono se torna frágil. 
 
    Não é uma conclusão ingênua, mas uma inversão de perspectiva. Costumamos olhar para a vida a partir das faltas: o que não deu certo, o que foi perdido, o que dói. A premissa propõe outro ponto de partida: a própria existência já seria evidência de um tipo de cuidado primordial. Não um cuidado que evita o sofrimento, mas um que permite que algo exista apesar dele. 
 
    Há, porém, um paradoxo silencioso. O mesmo mundo que sugere ordem também exibe ruína. A mesma vida que testemunha propósito também conhece o acaso. Confiar que uma sabedoria criadora implica uma sabedoria protetora exige atravessar essa tensão sem negá-la. Não se trata de acreditar que tudo dará certo, mas de admitir que nem tudo precisa fazer sentido imediato para ainda assim estar contido em uma inteligência maior. 
 
    Talvez o consolo mais profundo dessa ideia não esteja na promessa de segurança, mas na dissolução de uma solidão metafísica. Se a fonte que me pensou é também capaz de me sustentar, então minhas quedas não ocorrem fora de todo significado, mesmo quando parecem ocorrer fora de todo amparo. 
 
    Essa confiança, quando existe, raramente é estrondosa. Ela costuma ser discreta, quase austera. Manifesta-se menos como certeza e mais como uma recusa em reduzir a realidade ao que é visível no instante. É um gesto íntimo contra o desespero absoluto: aceitar que o mesmo princípio que tolera a vastidão das galáxias pode também suportar a precariedade de um coração humano. 
 
    Dessa forma, essa revelação toca em algo existencialmente radical: talvez viver não seja provar que estamos protegidos, mas escolher não viver como se estivéssemos irremediavelmente abandonados. 
 
Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense

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