"Assim como o cervo brama pelas correntes das águas, assim suspira a minha alma por ti, ó Deus!"
Salmos 42:1
Há, nesse verso, uma imagem de urgência silenciosa. O cervo não busca a água por capricho, mas por necessidade vital. Não é desejo supérfluo — é sobrevivência. Assim também é a alma que, em sua secura invisível, descobre que há uma sede que nada do mundo consegue saciar.
O bramido do cervo é um som de vulnerabilidade. Ele ecoa pela mata como confissão de fragilidade. Da mesma forma, o salmista expõe uma verdade desconfortável: a alma também tem fome, também tem sede, também se desespera. A espiritualidade, aqui, não nasce da força, mas da carência. Não brota da certeza, mas da falta.
Suspirar por Deus é reconhecer que existe um vazio que não se preenche com ruídos, conquistas ou distrações. É admitir que, mesmo cercado de coisas, algo permanece ausente. Há uma dimensão do ser humano que não se satisfaz com o visível, porque sua sede é mais funda que a matéria.
Esse clamor revela uma inversão curiosa: a fraqueza torna-se ponte. A necessidade torna-se caminho. A sede torna-se linguagem. Pois somente quem sente a secura compreende o valor da água; somente quem atravessa o deserto entende o milagre de uma fonte.
Talvez o verso fale menos sobre religião e mais sobre condição humana. Sobre essa inquietação persistente, essa sensação de incompletude, essa busca que não cessa. Como se houvesse, em cada ser, um tipo de saudade anterior a qualquer perda — uma memória de plenitude que nunca conseguimos nomear inteiramente.
A alma que suspira não é uma alma derrotada. É uma alma desperta.
Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense

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