domingo, 8 de fevereiro de 2026

Deus está tão perto

    Há uma distância que nenhum amor humano consegue atravessar. Um limite invisível onde o toque falha, a palavra tropeça, o olhar não alcança. Mesmo quem nos conhece por dentro — quem sabe nossos medos, manias e silêncios — ainda chega atrasado a certos abismos da alma. 
 
    É nesse ponto que um pensamento real revela sua verdade mais desconcertante: ninguém é capaz de chegar tão perto que Deus não esteja ainda mais perto
 
    Quando alguém se aproxima demais, Deus já habita o que essa pessoa não vê. Quando um abraço parece suficiente, Deus já sustenta o que o abraço não cura. Quando somos finalmente compreendidos, Deus já nos compreendia antes mesmo da confissão. 
 
    Há pensamentos que não ousamos dizer. Culpas que não encontram idioma. Dores que nem nós sabemos explicar. E ainda assim, ali — antes da forma, antes do nome, antes da coragem — Deus já está. 
 
    Isso não diminui os encontros humanos; ao contrário, dá a eles um limite sagrado. O outro não é Deus. Não pode ser salvação, nem morada definitiva. Pode ser passagem, sinal, companhia — mas nunca substituto. 
 
    Talvez o maior alívio dessa verdade seja este: não estamos condenados a depender totalmente do alcance humano. Mesmo quando ninguém entende, Deus entende. Mesmo quando ninguém fica, Deus permanece. Mesmo quando ninguém chega, Ele já chegou. 
 
    E talvez seja por isso que a solidão mais profunda não é ausência de pessoas, mas esquecimento dessa proximidade silenciosa. Porque no ponto exato em que nos sentimos inalcançáveis, Deus está perigosamente perto — não para invadir, mas para sustentar aquilo que nem nós conseguimos segurar. 
 
Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense

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