Há um momento em que o mundo deixa de falar e passa a gritar.
Tudo chama ao mesmo tempo: telas, vozes, urgências artificiais, promessas de sentido embaladas em segundos. Nesse coro incessante, nada se aprofunda — não por falta de vontade, mas por falta de silêncio.
A profundidade exige demora. Exige permanecer quando o impulso é escapar. Mas onde tudo chama ao mesmo tempo, permanecer parece desperdício. Aprende-se a tocar muitas superfícies, mas esquece-se o peso de afundar. A atenção vira trânsito: passa, observa, segue. Não cria raízes.
Pensar, sentir, amar — tudo isso pede exclusividade temporária. Um pacto silencioso entre quem olha e o que é olhado. Quando esse pacto é quebrado a cada instante, a experiência se fragmenta. O pensamento vira opinião rápida, o afeto vira reação, a dor vira ruído. Nada sangra o bastante para transformar.
Há também um medo escondido nessa dispersão: aprofundar é correr o risco de encontrar algo que não se pode abandonar depois. A superficialidade protege. Ela permite fugir antes que algo nos nomeie, antes que uma ideia, um sentimento ou uma verdade nos exija mudança.
Onde tudo chama ao mesmo tempo, vive-se ocupado, mas raramente comprometido. Vive-se informado, mas pouco tocado. E talvez o maior empobrecimento não seja a falta de tempo, mas a incapacidade de escolher uma única coisa — e dizer ao resto do mundo, ainda que por instantes: agora, não.
Porque só quando o barulho cessa é que algo começa a descer.
E só quando algo desce, de fato, é que passa a nos pertencer.
Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense
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