terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Um pacto silencioso

    Há um momento em que o mundo deixa de falar e passa a gritar. Tudo chama ao mesmo tempo: telas, vozes, urgências artificiais, promessas de sentido embaladas em segundos. Nesse coro incessante, nada se aprofunda — não por falta de vontade, mas por falta de silêncio. 
 
    A profundidade exige demora. Exige permanecer quando o impulso é escapar. Mas onde tudo chama ao mesmo tempo, permanecer parece desperdício. Aprende-se a tocar muitas superfícies, mas esquece-se o peso de afundar. A atenção vira trânsito: passa, observa, segue. Não cria raízes. 
 
    Pensar, sentir, amar — tudo isso pede exclusividade temporária. Um pacto silencioso entre quem olha e o que é olhado. Quando esse pacto é quebrado a cada instante, a experiência se fragmenta. O pensamento vira opinião rápida, o afeto vira reação, a dor vira ruído. Nada sangra o bastante para transformar. 
 
    Há também um medo escondido nessa dispersão: aprofundar é correr o risco de encontrar algo que não se pode abandonar depois. A superficialidade protege. Ela permite fugir antes que algo nos nomeie, antes que uma ideia, um sentimento ou uma verdade nos exija mudança. 
 
    Onde tudo chama ao mesmo tempo, vive-se ocupado, mas raramente comprometido. Vive-se informado, mas pouco tocado. E talvez o maior empobrecimento não seja a falta de tempo, mas a incapacidade de escolher uma única coisa — e dizer ao resto do mundo, ainda que por instantes: agora, não. 
 
    Porque só quando o barulho cessa é que algo começa a descer. E só quando algo desce, de fato, é que passa a nos pertencer. 
 
Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense

Nenhum comentário:

Postar um comentário