Os caminhos de Deus quase nunca são linhas retas traçadas para o nosso conforto. Eles atravessam zonas de medo, confronto e transformação. Por isso, muitas vezes, quando percebemos a direção divina, não damos um passo adiante — damos meia-volta. Fugimos não porque não entendemos o chamado, mas justamente porque entendemos demais o que ele exige de nós.
A história do Livro de Jonas revela isso com clareza. Jonas não foge por ignorância; foge por consciência. Ele sabe quem Deus é, sabe o que Deus pode fazer e, sobretudo, sabe o que Deus pode pedir. Ir a Nínive significava atravessar seus próprios limites morais, seus preconceitos, sua raiva e sua ideia de justiça. Deus o chamava para um lugar que não combinava com o que ele sentia — e aí nasce a fuga.
Quase sempre fugimos da direção de Deus porque ela desmonta nossas narrativas pessoais. Preferimos caminhos que preservem nossa imagem, nosso controle e nossas certezas. Deus, porém, aponta para lugares onde essas estruturas caem. Seu caminho raramente confirma quem pensamos ser; ele revela quem ainda precisamos nos tornar.
Há também o medo do resultado. Jonas sabia que, se obedecesse, Deus poderia perdoar Nínive. Às vezes resistimos ao chamado divino porque ele inclui a graça para quem, no fundo, achamos que não merece. Fugimos porque obedecer significaria abrir mão do direito de julgar, condenar ou se vingar.
Mas a fuga nunca é o capítulo final. O Deus que chama é o mesmo que persegue — não com violência, mas com propósito. O vento contrário, a tempestade, o peixe, o silêncio escuro: tudo isso não é punição, é correção de rota. Deus não nos impede de fugir, mas transforma a fuga em caminho de retorno.
Dessa forma, aprendemos que o problema não é Nínive, nem o mar, nem o peixe. O verdadeiro conflito acontece dentro de nós. Fugimos porque obedecer dói antes de curar. E, ainda assim, os caminhos de Deus continuam sendo os únicos que nos levam não apenas ao destino certo, mas à versão mais verdadeira de nós mesmos.
Talvez o maior milagre da história de Jonas não seja o peixe, mas o fato de que Deus nunca desistiu de chamá-lo — mesmo quando Jonas insistia em ir para o lado oposto.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense






