Existe algo profundamente belo nessa declaração do salmista: Deus é Senhor tanto das profundezas quanto das alturas. Nada está fora do alcance de suas mãos. O que existe de mais escondido na terra e aquilo que se ergue majestosamente acima dela pertencem igualmente a Ele.
As profundezas da terra podem nos lembrar os lugares que não conseguimos enxergar. Há profundezas dentro de nós que também desconhecemos: pensamentos que não confessamos, dores que escondemos, perguntas para as quais ainda não encontramos resposta. Podemos esconder essas coisas dos homens, mas não de Deus. Ele conhece aquilo que está nas profundezas.
E há também as alturas dos montes. Elas representam aquilo que admiramos: as conquistas, os sonhos realizados, os dias de vitória, os momentos em que nos sentimos fortes e seguros. O salmista nos lembra que até as alturas pertencem a Deus. Nenhuma conquista deveria nos fazer esquecer quem nos permitiu chegar até ela.
Existe, portanto, uma mensagem de humildade nessa passagem. Nas profundezas, não estamos abandonados; nas alturas, não somos soberanos. Quando descemos aos vales da vida, Deus continua presente. Quando subimos aos montes das realizações, Deus continua sendo Deus.
Às vezes queremos encontrar Deus somente no alto dos montes. Pensamos que sua presença se manifesta apenas quando tudo dá certo, quando nossas orações são respondidas e quando a vida parece contemplar-nos com benevolência. Mas o salmista coloca lado a lado as profundezas e as alturas. Isso significa que o Deus dos nossos dias de vitória é o mesmo Deus dos nossos dias de vale.
Quem sabe hoje você esteja vivendo uma profundidade. Há coisas acontecendo que você não entende, caminhos que parecem escuros e perguntas que permanecem sem resposta. Lembre-se: a profundidade não é profunda demais para as mãos de Deus.
E talvez você esteja vivendo uma altura. Há motivos para agradecer, portas que se abriram, sonhos que começaram a se realizar. Então, não transforme a bênção em orgulho. Os montes pertencem a Deus antes de pertencerem à nossa experiência.
A grande segurança dessa verdade está justamente nas palavras: “nas suas mãos”.
Não diz apenas que Deus conhece as profundezas. Diz que elas estão em suas mãos. Não diz somente que Ele contempla os montes. Diz que as alturas lhe pertencem.
Estamos, portanto, entre duas realidades que Deus domina: o abismo que nos assusta e o monte que nos encanta.
E pode ser que essa seja uma das mais belas lições do salmo: não precisamos temer as profundezas nem nos embriagar com as alturas, porque acima de ambas está a soberania de Deus.
Quando estivermos no vale, confiemos.
Quando estivermos no monte, agradeçamos.
Quando não compreendermos o caminho, continuemos caminhando.
Porque o Deus que sustenta os montes também sustenta aqueles que atravessam os vales. E suas mãos são suficientemente grandes para alcançar tanto aquilo que está abaixo de nós quanto aquilo que está acima de nós.
“Senhor, quando eu estiver nas profundezas, lembra-me de que ainda estou em Tuas mãos; e quando estiver nas alturas, lembra-me de que o monte nunca foi meu, sempre pertenceu a Ti.”
Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense






