Durante muito tempo, acreditei que as pessoas eram como livros inacabados. Bastava um pouco de paciência, uma palavra gentil, um gesto de confiança, e elas escreveriam os capítulos que eu esperava encontrar. Havia algo de bonito nessa esperança, mas também algo de profundamente injusto. Sem perceber, eu não enxergava as pessoas como elas eram; enxergava apenas aquilo que desejava que elas se tornassem.
Foi a vida, essa professora que raramente repete a lição, quem me ensinou o contrário.
Lembro-me de um velho conhecido que costumava prometer visitas que nunca fazia. Em cada reencontro, renovava o entusiasmo, dizia que apareceria no fim de semana, que sentaríamos para um café demorado, que colocaríamos as conversas em dia. Durante algum tempo, esperei por essas visitas como quem espera a chegada da chuva depois de uma longa seca. Até que um dia compreendi que ele não era alguém que faltava às promessas por maldade; simplesmente era assim. Seu entusiasmo morava nas palavras, não nos passos.
Foi então que percebi quantas vezes sofremos por exigir dos outros aquilo que eles nunca tiveram para oferecer.
Esperamos compreensão de quem nunca aprendeu a ouvir. Esperamos gratidão de quem acredita que tudo lhe é devido. Esperamos lealdade de quem ainda não descobriu o valor da fidelidade. E, quando essas expectativas se desfazem, costumamos chamar de decepção aquilo que, na verdade, era apenas um desencontro entre a realidade e a fantasia que construímos.
As pessoas oferecem aquilo que carregam dentro de si. Algumas distribuem esperança quase sem perceber. Outras espalham inquietação. Há quem chegue trazendo luz para os ambientes, enquanto outros parecem caminhar envoltos por nuvens que escurecem tudo ao redor. Não se trata de condenar uns nem de exaltar outros. Trata-se apenas de reconhecer que ninguém consegue repartir um sentimento que nunca cultivou.
Isso não significa desistir das pessoas. Pelo contrário. Significa libertá-las da obrigação de corresponder aos nossos roteiros particulares. Cada ser humano percorre um caminho diferente, enfrenta batalhas invisíveis e amadurece em um ritmo que não nos pertence controlar. Há quem floresça cedo; há quem leve quase uma vida inteira para descobrir a própria primavera.
O maior gesto de maturidade é aprender a ajustar as expectativas à realidade. Quando fazemos isso, as relações se tornam mais leves. A bondade deixa de ser uma cobrança silenciosa. O carinho deixa de exigir retribuições exatas. A amizade deixa de ser uma contabilidade de gestos. Passamos a apreciar o que cada pessoa realmente pode oferecer, sem deixar de estabelecer limites quando esse pouco já não basta para preservar nossa paz.
Com o tempo, também compreendemos que aceitar alguém como é não significa permitir qualquer comportamento. Há pessoas cuja companhia nos faz crescer, e outras cuja permanência nos diminui. Reconhecer essa diferença não é falta de amor; é um ato de respeito por si mesmo.
Hoje, quando encontro alguém que promete mais do que realiza, já não me irrito como antes. Apenas recordo uma verdade simples, dessas que parecem pequenas, mas sustentam muitos dias difíceis: dos outros só podemos esperar o que eles são, nunca aquilo que gostaríamos que fossem.
E, curiosamente, foi quando deixei de esperar que o mundo se moldasse aos meus desejos que comecei a enxergar melhor as pessoas. Algumas permaneceram. Outras seguiram seus próprios caminhos. Todas, porém, me ensinaram a mesma lição: a realidade talvez seja menos confortável do que a ilusão, mas é nela que nascem as relações mais sinceras e a paz que não depende das mudanças alheias.
Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense






