sábado, 26 de setembro de 2026

Cem ovelhas

    Tem certas lembranças que não envelhecem. O tempo passa, os lugares mudam, as pessoas seguem caminhos diferentes, algumas até desaparecem de nossa vida, mas determinadas experiências permanecem intactas em algum lugar profundo da memória, como se o passado tivesse encontrado uma maneira secreta de continuar vivendo dentro de nós. Quando penso na minha adolescência, nos anos 80, uma dessas lembranças retorna com uma força especial: o período em que, juntamente com dois colegas, fui trabalhar durante aproximadamente um mês em uma fazenda, ajudando a roçar o pasto. É curioso pensar que, entre tantas coisas que poderiam ter permanecido daquela época, o trabalho pesado, o cansaço, o calor, as noites no campo, as conversas entre nós, o que mais sobreviveu foi uma pequena fita cassete e as canções que ela carregava. Levamos conosco um pequeno toca-fitas movido a pilhas, um aparelho simples, quase insignificante diante da imensidão daquele lugar. E tínhamos apenas uma fita: “Cem Ovelhas”, de Ozeias de Paula. Era somente aquela fita. Não havia outra opção, não havia variedade, não havia a possibilidade de escolher a música de acordo com o humor ou com a noite. Era aquela fita, repetidamente. E talvez justamente por isso ela tenha se tornado tão profundamente nossa. 
 
    Naquela época, eu ainda não compreendia como a memória se constrói. Não sabia que os acontecimentos mais simples podem se transformar, muitos anos depois, em verdadeiros lugares interiores para os quais retornamos quando sentimos saudade de quem fomos. Trabalhávamos durante o dia, sob as condições próprias da vida rural, e quando a noite chegava, depois do esforço físico, restava-nos o silêncio da fazenda, a escuridão do céu e aquele pequeno aparelho que, com suas pilhas, parecia trazer para dentro daquele ambiente distante uma voz familiar. O mundo parecia muito maior naquela época. Não havia a velocidade de comunicação que existe hoje, não havia celulares, internet, redes sociais, música ilimitada. Tínhamos apenas o que carregávamos conosco. E naquela pequena fita havia algo que ultrapassava a música. Havia uma espécie de companhia. Quando apertávamos o botão do toca-fitas e as primeiras notas começavam a tocar, era como se a noite adquirisse outra dimensão. As canções preenchiam o espaço entre nós e o silêncio, e talvez também preenchessem, sem que soubéssemos, alguns vazios próprios da adolescência. 
 
    Hoje, quando me lembro daquela fita, percebo que não me recordo apenas das músicas. Recordo-me de quem eu era enquanto as ouvia. Isso é uma das maiores forças da música: ela não guarda somente sons; guarda versões de nós mesmos. Uma canção pode permanecer durante décadas escondida em algum canto da memória e, de repente, quando volta a ser ouvida, não traz apenas sua melodia, mas também o ambiente em que foi escutada, as pessoas que estavam ao nosso lado, o cheiro da noite, a sensação do corpo cansado, o céu sobre nossas cabeças, as conversas, os medos, os sonhos e até aquilo que não sabíamos nomear. A música transforma-se em uma espécie de cápsula do tempo. Por isso, quando penso em “Cem Ovelhas”, não penso apenas em Ozeias de Paula. Penso naquele adolescente que fui, sentado ou deitado depois de um dia de trabalho, ouvindo aqueles hinos em uma fazenda distante. Penso nos meus dois colegas e na simplicidade daquela existência. Penso em como éramos capazes de encontrar felicidade em coisas tão pequenas: uma conversa, uma risada, uma refeição depois de um dia cansativo e, principalmente, algumas canções reproduzidas por um pequeno aparelho alimentado por pilhas. 
 
    Existe algo profundamente bonito na pobreza de opções que tínhamos naquela época. Hoje podemos ouvir praticamente qualquer música a qualquer momento. Podemos escolher entre milhares de artistas, discos, estilos e gravações. Naquele tempo, porém, tínhamos uma única fita, e ela era suficiente. Talvez porque não procurássemos apenas entretenimento. Nós nos entregávamos àquilo que tínhamos. Cada música adquiria intimidade pela repetição. A fita se desgastava, o som talvez apresentasse pequenas imperfeições, mas aquelas imperfeições também passaram a fazer parte da lembrança. Não era necessário mudar. A mesma música que havíamos ouvido na noite anterior voltava novamente, e nós a escutávamos outra vez. Hoje compreendo que aquela repetição fazia algo que a abundância contemporânea muitas vezes dificulta: permitia que uma canção criasse raízes. Ela deixava de ser apenas uma música que se ouvia e passava a fazer parte de nossa própria história. 
 
    E havia também a dimensão espiritual daqueles hinos. Eu era jovem, e não tinha maturidade suficiente para compreender toda a profundidade das mensagens que ouvia, mas alguma coisa nelas encontrava lugar dentro de mim. As imagens bíblicas, a figura da ovelha perdida, o pastor que procura, a ideia de cuidado, de retorno, de proteção e de esperança encontravam uma ressonância especial naquele ambiente. Talvez porque a vida no campo tornasse essas imagens ainda mais concretas. Estávamos literalmente cercados por pastos, animais, caminhos de terra e pela vastidão de uma paisagem rural. A linguagem dos hinos não era abstrata. Ela dialogava com aquilo que nossos olhos viam durante o dia. A figura da ovelha, portanto, deixava de ser apenas uma imagem religiosa e se aproximava da realidade que nos cercava. E talvez essa combinação entre fé, juventude, trabalho e natureza tenha contribuído para que aquelas canções se fixassem tão profundamente em minha memória. 
 
    Quando penso nisso hoje, percebo que aquela experiência também me ensinou, sem que eu soubesse, algo sobre a passagem do tempo. Naquele momento, eu não imaginava que um dia estaria escrevendo sobre aquilo. Não imaginava que aquela noite aparentemente comum se transformaria em uma lembrança preciosa. O adolescente que eu era não tinha consciência de que estava vivendo uma parte da própria história. Essa é uma das ironias mais bonitas da existência: quase nunca reconhecemos o instante em que estamos vivendo algo que, no futuro, será profundamente importante para nós. A vida não coloca uma placa dizendo: “Preste atenção, você se lembrará desta noite durante décadas.” Simplesmente acontece. Vivemos, seguimos adiante e somente muitos anos depois compreendemos o valor de determinados momentos. 
 
    Quem sabe por isso eu tenha tanto carinho por aquela fita. Ela representa mais do que um conjunto de hinos. Representa uma época em que eu ainda estava descobrindo o mundo, em que o futuro parecia distante e a vida possuía uma espécie de horizonte aberto diante de mim. Representa a amizade daqueles dois colegas, o esforço de um trabalho temporário, a experiência de sair de casa e enfrentar uma realidade diferente, a juventude e suas primeiras descobertas sobre responsabilidade e independência. Mas representa também uma dimensão mais íntima: o encontro entre aquilo que eu era e aquilo que viria a ser. O jovem que ouvia aqueles hinos talvez não soubesse exatamente para onde caminharia, mas já carregava dentro de si sentimentos, perguntas, esperanças e uma sensibilidade que, de algum modo, continuaria acompanhando sua trajetória. 
 
    Há memórias que permanecem porque foram extraordinárias. Outras permanecem justamente porque foram simples. A minha lembrança daquela fazenda pertence à segunda categoria. Não houve um acontecimento grandioso. Não houve uma viagem famosa, uma festa inesquecível ou um acontecimento histórico. Houve apenas um mês de trabalho, dois colegas, uma fazenda, noites silenciosas e uma pequena fita cassete. E, no entanto, quando olho para trás, percebo que talvez seja justamente essa simplicidade que torna a lembrança tão poderosa. A memória não mede importância como medimos os acontecimentos. Ela escolhe seus próprios critérios. Uma coisa pequena pode adquirir uma dimensão enorme quando se mistura ao afeto, à juventude e ao tempo. 
 
    Às vezes penso que a saudade é uma espécie de diálogo silencioso entre o homem que somos e aquele que fomos. Quando me lembro daqueles dias, não quero simplesmente voltar àquela fazenda. Sei que o tempo não permite esse retorno. O que desejo, talvez, seja reencontrar por alguns instantes o olhar daquele adolescente, sua maneira de enxergar o mundo, sua capacidade de se encantar com tão pouco. Quero reencontrar a noite, o silêncio, os amigos e o pequeno toca-fitas. Quero ouvir novamente a fita começando a girar, sentir aquela atmosfera e experimentar, ainda que por alguns segundos, a sensação de não saber tudo o que o futuro me reservava. Porque talvez seja isso que mais profundamente guardamos: não apenas os lugares onde estivemos, mas as pessoas que fomos quando estivemos nesses lugares. 
 
    Hoje, depois de tantos anos, compreendo que aquela fita cassete se transformou em uma espécie de relicário da minha adolescência. Quando penso nela, não escuto somente hinos; escuto o tempo. Escuto a voz distante de um rapaz que ainda não conhecia as perdas, as mudanças, as responsabilidades e as inúmeras curvas que a vida colocaria em seu caminho. Escuto também a voz da fé que o acompanhava, talvez ainda de maneira simples, talvez cheia de perguntas, mas suficientemente forte para permanecer. E percebo que algumas músicas não terminam quando a fita chega ao fim. Elas continuam tocando dentro de nós durante décadas, silenciosamente, reaparecendo quando alguma lembrança abre a porta do passado. 
 
    Creio que seja esse o verdadeiro poder da memória: ela consegue transformar aquilo que foi pequeno em algo imenso. Uma fita, algumas pilhas, três adolescentes e uma fazenda poderiam parecer insignificantes aos olhos de quem observa de fora. Para mim, porém, aquele conjunto representa um pedaço precioso da minha existência. E quando hoje ouço “Cem Ovelhas”, sinto que não estou apenas lembrando de uma música ou de um disco. Estou reencontrando um tempo que não existe mais, amigos que pertencem àquela época, um jovem que um dia fui e uma parte de mim que jamais deixou completamente de existir. A fita acabou, as pilhas se gastaram, o aparelho certamente desapareceu e os anos passaram. Mas alguma coisa ficou. Ficou a música, ficou a fé, ficou a amizade e, sobretudo, ficou a memória. E é justamente isso que o tempo não consegue destruir: aquilo que, um dia, tocou profundamente a nossa alma. 
 
Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

A perturbadora raridade do outro

    É possível observar uma espécie de espanto que só conhecemos quando, depois de atravessar uma longa sucessão de encontros indiferentes, finalmente encontramos alguém que nos desperta. Não se trata necessariamente de alguém extraordinário segundo os critérios do mundo. Pode não possuir grande beleza, riqueza, prestígio ou qualquer das qualidades que costumamos associar às pessoas “especiais”. O que a torna rara é outra coisa: sua presença nos retira, ainda que por alguns instantes, da confortável repetição de nós mesmos. 
 
    Vivemos cercados de pessoas e, paradoxalmente, quase sempre encontramos muito poucas. Encontrar alguém não significa simplesmente cruzar com um corpo, ouvir uma voz ou trocar palavras. O verdadeiro encontro acontece quando o outro deixa de ser apenas uma figura no cenário da nossa existência e passa a constituir uma pergunta. Há pessoas que conhecemos sem jamais encontrá-las. E há aquelas que, em poucos minutos, parecem ter estado diante de nós durante anos. 
 
    Creio que essa seja uma das experiências mais desconcertantes da existência: descobrir que aquilo que julgávamos procurar não era exatamente companhia, mas presença. Não queríamos simplesmente alguém ao nosso lado; queríamos alguém diante de quem pudéssemos abandonar a banalidade das conversas automáticas e experimentar novamente a estranheza de estar vivo. 
 
    A maior parte dos encontros cotidianos é previsível. Repetimos opiniões, gestos, frases e comportamentos. Aprendemos rapidamente aquilo que se espera de nós e, muitas vezes, também aquilo que esperamos dos outros. Criamos personagens para nós mesmos e passamos a reconhecer nos demais os personagens que eles desempenham. Assim, a convivência torna-se confortável porque quase nada nos surpreende. 
 
    É justamente por isso que uma pessoa verdadeiramente interessante pode ser perturbadora. Ela não confirma necessariamente aquilo que pensamos. Não se encaixa imediatamente nas categorias que utilizamos para compreender o mundo. Há nela alguma coisa que resiste à nossa interpretação. E aquilo que resiste nos incomoda. O ser humano gosta de compreender porque compreender produz a sensação de controle. Mas diante de alguém realmente singular, percebemos que o outro não cabe inteiramente na imagem que construímos dele. 
 
    Nesse sentido, encontrar uma pessoa rara é também experimentar a insuficiência de nossas próprias certezas. Ela pode dizer uma frase aparentemente simples e, ainda assim, permanecer em nossa consciência durante horas. Pode fazer uma pergunta que jamais havíamos formulado. Pode discordar de nós sem hostilidade, obrigando-nos a perceber que nossas convicções talvez sejam menos sólidas do que imaginávamos. Pode simplesmente olhar o mundo de uma maneira que não conseguimos reproduzir. E então acontece algo profundamente existencial: o outro começa a modificar a maneira como nos percebemos. 
 
    Durante muito tempo acreditamos que somos determinados por nossas experiências, nossas escolhas, nossa história e nossas convicções. Entretanto, certas pessoas funcionam como espelhos que não refletem aquilo que somos, mas aquilo que poderíamos ser. Ao encontrá-las, percebemos possibilidades esquecidas de nós mesmos. Descobrimos pensamentos que estavam adormecidos, sensibilidades que haviam sido sufocadas pela rotina, perguntas que a vida cotidiana nos ensinou a não fazer. Talvez seja esse o verdadeiro significado de uma pessoa rara: não alguém que simplesmente nos encanta, mas alguém que nos devolve a nós mesmos sob uma forma diferente. 
 
    Por isso o encontro pode ser perturbador. Porque toda descoberta implica alguma perda. Quando encontramos alguém que nos mostra uma dimensão desconhecida da existência, perdemos a tranquilidade de acreditar que já conhecíamos suficientemente o mundo. A novidade cobra seu preço. Depois de perceber que existe algo além do habitual, já não conseguimos voltar completamente à inocência anterior. O problema, portanto, não é a raridade dessas pessoas. O problema é que, quando finalmente encontramos uma, percebemos a extensão da ausência das outras. 
 
    Talvez seja isso que produza o choque constante: não esperávamos encontrar alguém tão interessante justamente porque havíamos nos acostumado demais com o previsível. A repetição havia se tornado normal. O superficial havia adquirido aparência de profundidade simplesmente porque era frequente. Então surge alguém e rompe a estatística. E aquilo que era exceção passa a revelar a pobreza da regra. 
 
    Há, porém, uma questão ainda mais incômoda. E se a raridade que procuramos nos outros for também uma exigência que deveríamos fazer a nós mesmos? E se o verdadeiro problema não estiver apenas na escassez de pessoas interessantes, mas na nossa própria dificuldade de permanecer interessantes diante do mundo? 
 
    É fácil reclamar da superficialidade alheia. Mais difícil é perguntar se nós mesmos ainda somos capazes de olhar profundamente. É fácil desejar alguém que nos provoque intelectualmente, emocionalmente e espiritualmente. Mais difícil é tornar-se alguém capaz de provocar o mesmo no outro. 
 
    A existência, talvez, não seja uma espera por pessoas raras, mas uma responsabilidade de tornar-se raro sem se tornar artificial. Ser raro não significa ser excêntrico, incompreensível ou diferente por obrigação. Significa preservar uma interioridade que não tenha sido completamente colonizada pelo hábito. Significa continuar fazendo perguntas quando todos parecem satisfeitos com respostas. Significa conservar a capacidade de admirar, duvidar, pensar e sentir. 
 
    Porque uma pessoa verdadeiramente interessante talvez seja, antes de tudo, alguém que não terminou de existir. Ela permanece em construção. Não é inteiramente previsível nem para os outros, nem para si mesma. Carrega contradições, dúvidas, desejos, fracassos e possibilidades. Não é uma estátua acabada, mas uma pergunta em movimento. E, existe a possibilidade de ser justamente isso que nos atrai. 
 
    Não buscamos apenas pessoas que tenham respostas. Procuramos, muitas vezes sem saber, pessoas que ainda tenham perguntas. No fundo, o encontro com alguém raro nos confronta com aquilo que há de mais desconfortável na existência: a consciência de que estamos vivos entre outros seres igualmente incompletos, tentando compreender alguma coisa que jamais compreenderemos por inteiro. 
 
    É provável que por isso sejam tão poucos os encontros verdadeiramente marcantes. Não porque existam poucas pessoas no mundo, mas porque são poucas aquelas diante das quais conseguimos abandonar a máscara, suspender o automatismo e sentir novamente o espanto de estar diante de outro ser humano. E quando isso acontece, há uma espécie de silêncio interior. Percebemos que encontramos alguém. Não apenas mais um rosto. Não apenas mais uma voz. Mas uma presença. E uma presença verdadeira é sempre perturbadora, porque nos lembra que a vida ainda pode nos surpreender. 
 
Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense

terça-feira, 22 de setembro de 2026

A medida de cada um

    Durante muito tempo, acreditei que as pessoas eram como livros inacabados. Bastava um pouco de paciência, uma palavra gentil, um gesto de confiança, e elas escreveriam os capítulos que eu esperava encontrar. Havia algo de bonito nessa esperança, mas também algo de profundamente injusto. Sem perceber, eu não enxergava as pessoas como elas eram; enxergava apenas aquilo que desejava que elas se tornassem. Foi a vida, essa professora que raramente repete a lição, quem me ensinou o contrário. 
 
    Lembro-me de um velho conhecido que costumava prometer visitas que nunca fazia. Em cada reencontro, renovava o entusiasmo, dizia que apareceria no fim de semana, que sentaríamos para um café demorado, que colocaríamos as conversas em dia. Durante algum tempo, esperei por essas visitas como quem espera a chegada da chuva depois de uma longa seca. Até que um dia compreendi que ele não era alguém que faltava às promessas por maldade; simplesmente era assim. Seu entusiasmo morava nas palavras, não nos passos. Foi então que percebi quantas vezes sofremos por exigir dos outros aquilo que eles nunca tiveram para oferecer. 
 
    Esperamos compreensão de quem nunca aprendeu a ouvir. Esperamos gratidão de quem acredita que tudo lhe é devido. Esperamos lealdade de quem ainda não descobriu o valor da fidelidade. E, quando essas expectativas se desfazem, costumamos chamar de decepção aquilo que, na verdade, era apenas um desencontro entre a realidade e a fantasia que construímos. 
 
    As pessoas oferecem aquilo que carregam dentro de si. Algumas distribuem esperança quase sem perceber. Outras espalham inquietação. Há quem chegue trazendo luz para os ambientes, enquanto outros parecem caminhar envoltos por nuvens que escurecem tudo ao redor. Não se trata de condenar uns nem de exaltar outros. Trata-se apenas de reconhecer que ninguém consegue repartir um sentimento que nunca cultivou. 
 
    Isso não significa desistir das pessoas. Pelo contrário. Significa libertá-las da obrigação de corresponder aos nossos roteiros particulares. Cada ser humano percorre um caminho diferente, enfrenta batalhas invisíveis e amadurece em um ritmo que não nos pertence controlar. Há quem floresça cedo; há quem leve quase uma vida inteira para descobrir a própria primavera. 
 
    O maior gesto de maturidade é aprender a ajustar as expectativas à realidade. Quando fazemos isso, as relações se tornam mais leves. A bondade deixa de ser uma cobrança silenciosa. O carinho deixa de exigir retribuições exatas. A amizade deixa de ser uma contabilidade de gestos. Passamos a apreciar o que cada pessoa realmente pode oferecer, sem deixar de estabelecer limites quando esse pouco já não basta para preservar nossa paz. 
 
    Com o tempo, também compreendemos que aceitar alguém como é não significa permitir qualquer comportamento. Há pessoas cuja companhia nos faz crescer, e outras cuja permanência nos diminui. Reconhecer essa diferença não é falta de amor; é um ato de respeito por si mesmo. 
 
    Hoje, quando encontro alguém que promete mais do que realiza, já não me irrito como antes. Apenas recordo uma verdade simples, dessas que parecem pequenas, mas sustentam muitos dias difíceis: dos outros só podemos esperar o que eles são, nunca aquilo que gostaríamos que fossem. 
 
    E, curiosamente, foi quando deixei de esperar que o mundo se moldasse aos meus desejos que comecei a enxergar melhor as pessoas. Algumas permaneceram. Outras seguiram seus próprios caminhos. Todas, porém, me ensinaram a mesma lição: a realidade talvez seja menos confortável do que a ilusão, mas é nela que nascem as relações mais sinceras e a paz que não depende das mudanças alheias. 
 
Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense

sábado, 19 de setembro de 2026

Quando os olhos mudam de direção

    O ressentimento muitas vezes nasce quando nossos olhos se voltam para os outros. Olhamos para aquilo que possuem, para as oportunidades que receberam, para o reconhecimento que alcançaram, para a vida que parecem levar, e começamos a comparar. A comparação, quase sempre, nos faz enxergar aquilo que julgamos faltar em nós. E, pouco a pouco, o coração deixa de agradecer pelo que tem para lamentar pelo que o outro possui. 
 
    Quando olhamos demasiadamente para os lados, encontramos motivos para reclamar. Sempre haverá alguém aparentemente mais bem-sucedido, mais reconhecido, mais próspero, mais amado ou mais feliz. E, se fizermos da vida dos outros a régua para medir a nossa, dificilmente encontraremos contentamento. O contentamento nasce quando mudamos a direção do olhar. 
 
    Olhar para Deus não significa ignorar nossas dificuldades, nem fingir que tudo está bem. Significa reconhecer que nossa vida não precisa ser comparada com a de ninguém para ter valor. Deus nos ensina a agradecer pelo caminho que nos foi confiado, pelas pequenas bênçãos que tantas vezes passam despercebidas e até pelas dificuldades que nos amadurecem. Quem olha para os outros pode alimentar o ressentimento; quem olha para Deus encontra motivos para agradecer. 
 
    O ressentimento pergunta: “Por que ele tem e eu não?” A gratidão pergunta: “Senhor, por tudo aquilo que já recebi, como posso não agradecer?” Uma das maiores libertações da alma acontece justamente quando deixamos de competir com a vida alheia. Não precisamos ter o que o outro tem, viver o que o outro vive ou chegar onde o outro chegou. Cada pessoa possui uma história, um tempo e um caminho. 
 
    Por isso, quando o coração começar a se entristecer diante das conquistas alheias, talvez seja hora de baixar os olhos da comparação e elevá-los para Deus. Afinal, quem vive olhando para os outros sempre encontrará motivos para se sentir diminuído; quem aprende a olhar para Deus encontra razões para permanecer em paz. 
 
    O segredo do contentamento não está em possuir tudo o que desejamos, mas em reconhecer a presença de Deus naquilo que já possuímos. O ressentimento nasce da comparação. A gratidão nasce da contemplação. E o contentamento nasce quando descobrimos que Deus continua sendo suficiente. 
 
Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Um repouso seguro

    “Em paz me deito e logo adormeço, pois só tu, Senhor, me fazes viver em segurança.” — Salmos 4:8 
 
    Há uma diferença profunda entre deitar-se e repousar. Podemos colocar o corpo sobre a cama e, ainda assim, permanecer em guerra por dentro. Os pensamentos continuam acordados, as preocupações atravessam a madrugada e aquilo que não conseguimos resolver durante o dia parece crescer no silêncio da noite. 
 
    O salmista, porém, nos apresenta outra possibilidade: repousar em Deus. Salmos 4 não promete que todas as circunstâncias estarão resolvidas antes de fecharmos os olhos. O salmista não diz que não existem problemas, perigos ou incertezas. Ele afirma algo mais profundo: a segurança última de sua vida não depende da ausência de problemas, mas da presença de Deus. 
 
    “Em paz me deito.” A paz aqui não é simplesmente o silêncio ao redor; é a confiança que nasce quando entregamos a Deus aquilo que não conseguimos controlar. Há coisas que precisam ser enfrentadas amanhã. Há perguntas que não encontrarão resposta nesta noite. Há situações que não dependem apenas de nossa vontade. E reconhecer isso também é uma forma de sabedoria. 
 
    Dormir pode ser um ato de fé. Quando fechamos os olhos, simbolicamente reconhecemos: não preciso vigiar tudo; Deus continua cuidando enquanto descanso. O mundo continuará existindo durante a nossa noite. Nossos problemas permanecerão no lugar deles. Mas nós podemos descansar porque nossa vida não está sustentada apenas pela nossa capacidade de prever, controlar ou resolver. O verdadeiro repouso começa quando o coração aprende a dizer: “Senhor, fiz o que estava ao meu alcance. O que não posso resolver, entrego a Ti.” 
 
    Existe também uma bela lição na expressão “logo adormeço”. O salmista associa a confiança à capacidade de descansar. Não significa que toda pessoa que possui fé necessariamente terá noites sem ansiedade, mas revela uma verdade espiritual: quanto mais confiamos em Deus, menos precisamos carregar sozinhos o peso do amanhã. Talvez hoje existam preocupações que insistem em acompanhar você até a cama. Antes de dormir, entregue cada uma delas a Deus. Não porque sejam pequenas, mas porque Deus é maior do que elas. 
 
    Que a noite seja, então, mais do que uma pausa para o corpo. Que seja um momento de entrega. Deixe para trás o que passou. Não tente viver antecipadamente o que ainda não chegou. Confie a Deus aquilo que você não pode controlar. E permita que o coração encontre descanso. Porque existe uma segurança que não vem das circunstâncias, mas da certeza de que Deus permanece presente quando nossos olhos se fecham. 
 
    Que possamos nos deitar em paz, adormecer em confiança e despertar amanhã com a esperança renovada. 
 
    Senhor, nesta noite entrego a Ti minhas preocupações, meus medos e tudo aquilo que não posso resolver. Acalma meus pensamentos, aquieta meu coração e concede-me um repouso tranquilo. Guarda minha vida enquanto descanso e ensina-me a confiar que Tu permaneces no controle mesmo quando eu não posso fazer mais nada. Que a Tua presença seja minha segurança e a Tua paz, meu abrigo. Amém. 
 
Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Caminho com menos ilusão

    Há renúncias que não cabem em palavras. Elas acontecem em silêncio, quando o coração compreende que nem todo sonho nasceu para permanecer. 
 
    Renunciei aos meus sonhos mais belos não porque deixei de acreditar neles, mas porque a vida me ensinou que insistir em alguns caminhos pode significar perder a paz. Há momentos em que abrir as mãos exige mais coragem do que continuar segurando aquilo que já não nos pertence. 
 
    Os sonhos que um dia iluminaram meus dias transformaram-se em lembranças. Ainda os contemplo com carinho, pois foram eles que alimentaram minha esperança quando tudo parecia escuro. Não me arrependo de tê-los sonhado. Arrepender-me seria negar a beleza que um dia deram à minha existência. 
 
    Descobri que renunciar não é o mesmo que desistir da vida. É permitir que novos horizontes encontrem espaço onde antes havia apenas expectativas. É aceitar que algumas flores foram feitas apenas para perfumar uma estação, não para durar todas as primaveras. 
 
    Há uma serenidade escondida na aceitação. Quando deixei partir os sonhos que mais amava, percebi que Deus, o tempo e a própria vida continuavam escrevendo minha história, mesmo quando eu já não conseguia enxergar o próximo capítulo. 
 
    Hoje caminho com menos ilusões, mas com mais sabedoria. Carrego cicatrizes que não escondo, pois cada uma delas testemunha que vivi intensamente, amei profundamente e sonhei sem medo. 
 
    Pode ser que os meus sonhos mais belos tenham ficado para trás. Talvez tenham apenas mudado de forma. O que sei é que nenhuma renúncia é capaz de apagar a dignidade de quem teve coragem de amar, de esperar e, quando chegou a hora, de deixar partir. Porque alguns sonhos morrem, mas aquilo que aprendemos ao sonhá-los permanece para sempre. 
 
Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense

domingo, 13 de setembro de 2026

Um alerta a nossa juventude

    Os adolescentes caminham lado a lado pelas mesmas ruas, conectados por fios invisíveis, mas separados por muralhas erguidas antes mesmo de aprenderem a pensar por si. Herdam certezas embaladas em discursos prontos, opiniões fabricadas em série e dogmas que lhes prometem identidade ao preço da individualidade. 
 
    Há algo de trágico em vê-los tão próximos e, ao mesmo tempo, tão distantes. Cada qual fechado em sua própria fortaleza de verdades emprestadas, desconfiando do outro não por aquilo que ele é, mas pelo rótulo que lhe foi colado. As conversas transformam-se em trincheiras; os encontros, em disputas; a curiosidade, em suspeita. 
 
    Os dogmas pré-fabricados oferecem o conforto das respostas rápidas, mas roubam a beleza das perguntas. E sem perguntas, a juventude perde uma de suas maiores virtudes: a capacidade de descobrir o mundo com espanto. 
 
    Penso que o maior desafio desta geração não seja a falta de informação, mas o excesso de certezas. Enquanto as vozes do passado e dos algoritmos lhes dizem o que pensar, muitos deixam de ouvir o próprio coração, de experimentar o contraditório, de errar e reconstruir suas convicções. 
 
    E assim, inúmeros adolescentes desmoronam silenciosamente, não pela ausência de caminhos, mas pela imposição de rotas já traçadas. Tornam-se estrangeiros uns dos outros, quando poderiam ser companheiros de jornada na aventura de compreender a complexidade humana. Afinal, nenhuma ponte é construída com verdades absolutas; elas nascem do diálogo, da dúvida e da coragem de enxergar o outro para além dos dogmas que o cercam. 
 
Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense