domingo, 22 de fevereiro de 2026

Viver é encontrar tempestades

    Muitas vezes crescemos acreditando que uma vida bem-sucedida é aquela blindada contra dores, conflitos e fracassos. Como se o ideal da existência fosse uma superfície lisa, sem rachaduras. Mas viver é, inevitavelmente, encontrar tempestades. Não há escolha capaz de nos poupar completamente do inesperado, do sofrimento ou das perdas. 
 
    Talvez a questão mais profunda não seja como evitar problemas, mas como permanecer íntegro quando eles surgirem. A fidelidade — aos próprios valores, à própria consciência, ao que se considera justo e verdadeiro — é uma construção silenciosa, diária. Ela não depende de circunstâncias favoráveis; ao contrário, revela-se justamente quando tudo é posto à prova. 
 
    Uma vida sem problemas é uma fantasia frágil. Já uma vida fiel exige coragem. Coragem para escolher o que é certo mesmo quando é difícil, para sustentar convicções quando seria mais fácil ceder, para não se trair em troca de alívio momentâneo. 
 
    Os problemas moldam o caminho, mas as escolhas moldam o ser. E, ao final, talvez não sejamos lembrados pela ausência de quedas, e sim pela coerência com que atravessamos cada uma delas. A fidelidade não elimina as dores da vida, mas dá sentido a elas. 
 
Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense

sábado, 21 de fevereiro de 2026

Livra-me dos meus inimigos

    "Livra-me dos meus inimigos, ó Deus; põe-me fora do alcance dos meus agressores. Livra-me dos que praticam o mal e salva-me dos assassinos". Salmos 59. 1,2. 
 
    Essa súplica nasce de um lugar profundamente humano: o instante em que alguém se sente cercado, vulnerável, ameaçado não apenas por forças externas, mas pela própria experiência do medo. O clamor do salmista não é um grito de vingança, mas um pedido de proteção. Há algo de íntimo e quase desesperado nessa súplica: “põe-me fora do alcance”. Não é o desejo de destruir o inimigo, mas de sobreviver a ele. 
 
    Nesse trecho do Livro de Salmos, o inimigo pode ser lido de muitas formas. Pode ser alguém concreto, uma injustiça sofrida, uma perseguição real. Mas também pode ser aquilo que nos invade por dentro: angústias, culpas, pensamentos que nos atacam silenciosamente. Nem todo agressor tem rosto; alguns habitam a mente, outros se escondem nas circunstâncias da vida. 
 
    O texto revela uma verdade delicada: reconhecer que precisamos ser livrados é admitir nossa fragilidade. Vivemos em uma cultura que exalta autossuficiência, mas o salmista ora justamente porque sabe que não basta a própria força. Há momentos em que resistir sozinho é impossível. A oração, então, torna-se um gesto de lucidez, não de fraqueza. 
 
    Também é significativo que o pedido seja dirigido a Deus e não aos próprios recursos. O salmo sugere confiança em uma justiça maior, em uma proteção que transcende o controle humano. É quase como dizer: “há perigos que não sei enfrentar, caminhos que não sei ver, livra-me do que não consigo evitar”. 
 
    Essa súplica ecoa em qualquer tempo porque o sentimento de ameaça é universal. Todos, em algum momento, conhecem a sensação de estar exposto — emocionalmente, socialmente, existencialmente. O salmo oferece linguagem para esse estado de alma. Ele legitima o medo sem glorificá-lo, transforma o desespero em diálogo. 
 
    No fundo, o que vibra nesses versos não é apenas o medo do mal, mas o desejo de preservação da vida. É a esperança de que, mesmo em meio à hostilidade, exista refúgio. Uma afirmação silenciosa de que a violência, externa ou interna, não precisa ter a última palavra. 
 
Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Somos passageiros nesta vida

    Vivemos como quem segura água nas mãos. A vida escorre pelos dedos enquanto acreditamos, ingenuamente, que ainda a possuímos. Fazemos planos longos em uma existência curta, adiamos afetos como se o tempo fosse um contrato renovável. Mas o tempo não negocia — ele apenas passa. 
 
    Na chamada modernidade líquida, nada parece feito para durar. Relações dissolvem-se ao menor desconforto, identidades são trocadas como roupas, certezas evaporam. Tudo é flexível, tudo é substituível, tudo é provisório. E, paradoxalmente, nunca estivemos tão exaustos. Há uma pressa silenciosa em existir. Corre-se sem saber exatamente para onde, acumula-se sem saber exatamente por quê. O instante perdeu densidade. Vive-se muito, sente-se pouco. Conecta-se com todos, aprofunda-se em quase ninguém. 
 
    A brevidade da vida, que deveria nos despertar para o essencial, muitas vezes apenas intensifica a ansiedade. Queremos experimentar tudo, ser tudo, viver tudo — e acabamos habitando uma sucessão de superfícies. A abundância de possibilidades transforma-se em escassez de sentido. 
 
    Talvez o drama não esteja na vida ser curta, mas em ser dispersa. Porque uma vida breve pode ser imensa, se houver presença. Um encontro pode ser eterno, se houver verdade. Um momento pode ser pleno, se houver entrega. O que dilui a existência não é o tempo limitado, mas a atenção fragmentada. 
 
    No mundo líquido, resistir talvez seja um ato quase subversivo. Resistir é permanecer. É aprofundar. É aceitar que nem tudo precisa ser rápido, nem tudo precisa ser novo, nem tudo precisa ser descartável. É compreender que finitude não é urgência cega — é convite à lucidez. 
 
    Somos passageiros, sempre fomos. Mas ainda podemos escolher se atravessaremos o tempo como quem apenas consome dias ou como quem realmente os habita. Porque, no fim, a vida não é medida pela duração, mas pela intensidade com que tocamos — e somos tocados — enquanto ela passa. 
 
Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Quando não há mais barulho

    A solidão nem sempre chega como abandono. Às vezes, ela vem como silêncio conquistado. Quando o que faz barulho vai embora — pessoas, expectativas, ruídos do mundo, vozes que não nos pertencem — algo finalmente se abre. Não é um vazio imediato, mas um espaço. E é nesse espaço que certos encontros, antes impossíveis, acontecem. 
 
    Enquanto há barulho, estamos ocupados reagindo. Tentando agradar, explicar, defender, competir. O excesso de presença alheia nos mantém em superfície, como quem conversa na beira da água sem nunca mergulhar. O barulho distrai, anestesia, protege. Mas também impede. Ele nos poupa do desconforto de estar a sós, porém nos rouba a chance de ouvir aquilo que só sussurra. 
 
    A solidão, quando aceita, retira as máscaras sem pedir licença. Ela não conversa alto, não exige performance. Diante dela, não há plateia. E é justamente por isso que alguns encontros — com quem realmente somos, com lembranças esquecidas, com desejos que não ousavam existir — só se dão ali. Não sobreviveriam ao tumulto. Precisam de silêncio como certas sementes precisam de escuridão para germinar. 
 
    Há pessoas que só nos encontram quando paramos de fazer ruído por elas. Há verdades que só se aproximam quando cessamos a necessidade de explicá-las. E há um tipo de encontro — o mais decisivo — que acontece quando nos sentamos sozinhos e, pela primeira vez, não tentamos fugir de nós mesmos. 
 
    O barulho vai embora, e parece perda. Mas é ganho. Ficam os passos que realmente importam, as vozes que não gritam, as presenças que não disputam espaço. Fica o essencial, que nunca soube fazer alarde. E então entendemos: a solidão não foi ausência de encontros, mas a condição para que os mais profundos, enfim, acontecessem. 
 
Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

A fé não pode ser mercadoria

    Quando o amor passa a ser interpretado sob a lógica econômica, algo essencialmente humano sofre uma mutação silenciosa. O que antes era experiência, encontro, vulnerabilidade, transforma-se em transação. No contexto do chamado “capitalismo religioso”, essa mutação adquire contornos ainda mais delicados, porque toca o território do sagrado — justamente o espaço que muitas tradições espirituais afirmam ser incompatível com a lógica da compra e venda. 
 
    A fé, em sua dimensão mais profunda, nasce de uma relação com o mistério, com o sentido, com aquilo que não pode ser plenamente medido. Já o mercado exige cálculo, equivalência, previsibilidade. Quando essas duas esferas se fundem de maneira extrema, surge uma tensão: aquilo que deveria ser vivido como graça corre o risco de ser reinterpretado como investimento; a devoção, como estratégia; a esperança, como ativo simbólico. 
 
    Nesse cenário, o amor deixa de ser um fim em si mesmo e passa a funcionar como promessa de retorno — emocional, social ou até financeiro. A espiritualidade, então, pode ser instrumentalizada: crê-se não apenas por convicção íntima, mas pela expectativa de recompensa. O problema não está na legítima busca humana por melhoria de vida ou conforto, mas na transformação da experiência espiritual em mecanismo de troca, onde o divino parece responder às mesmas regras de eficiência e produtividade que regem o consumo. 
 
    Há também uma consequência subjetiva importante. Se a bênção é percebida como resultado de mérito econômico ou de performance religiosa, a frustração torna-se culpa individual. A ausência de prosperidade pode ser interpretada como falha moral, enfraquecendo a complexidade das condições sociais e existenciais. A fé, que poderia ser espaço de acolhimento, corre o risco de se tornar arena de comparação e ansiedade. 
 
    Não precisamos negar a materialidade da vida nem demonizar instituições religiosas. Podemos, porém, questionar: o que acontece quando categorias de mercado colonizam dimensões simbólicas e afetivas? Que tipo de relação com o sagrado se constrói quando até o amor parece depender de lógica contratual? E, sobretudo, que perdas humanas se acumulam quando aquilo que é, por natureza, gratuito, passa a ser percebido como produto? 
 
    Talvez o ponto mais sensível seja lembrar que nem tudo que tem valor pode ter preço. Amor, fé, sentido, pertencimento — essas experiências estruturam a existência justamente porque escapam à mensuração estrita. Reduzi-las a equivalências econômicas pode oferecer uma sensação de controle, mas empobrece sua densidade. O desafio contemporâneo não é eliminar o mercado nem negar a realidade econômica, e sim impedir que sua lógica se torne a única linguagem possível para interpretar o humano e o transcendente. 
 
    Preservar o amor e a fé como espaços de gratuidade não é ingenuidade; é uma forma de resistência simbólica. É afirmar que há dimensões da vida que não podem ser totalmente capturadas por sistemas de troca — e que talvez residam aí, justamente, as experiências mais decisivas da condição humana. 
 
Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

O silêncio de uma vida secreta

    Existe uma teoria silenciosa sobre a existência humana: a de que cada pessoa vive não uma, mas três vidas simultâneas. 
 
    A primeira é a vida pública — aquela que circula entre olhares, cumprimentos, perfis e expectativas. É a vida polida, organizada, inteligível. Nela, somos traduzidos em papéis: profissão, títulos, opiniões aceitáveis, versões socialmente viáveis de nós mesmos. A vida pública é quase sempre uma narrativa editada. Não necessariamente falsa, mas cuidadosamente filtrada. É o território onde aprendemos a caber. 
 
    A segunda é a vida privada — mais morna, mais humana, menos ensaiada. É onde a armadura afrouxa, onde os gestos não precisam de plateia. Aqui vivem os afetos, os cansaços, as contradições domésticas, os medos confessáveis. Ainda assim, mesmo nesse espaço, algo permanece sob vigilância. A vida privada não é completamente nua; ela ainda responde ao medo de ferir, decepcionar ou ser mal compreendido. É um lugar de intimidade, mas não de absoluto desabrigo. 
 
    E então existe a terceira vida. 
 
    A vida secreta não é simplesmente aquilo que escondemos dos outros. É, muitas vezes, aquilo que mal conseguimos dizer a nós mesmos. Nela residem desejos impronunciáveis, vergonhas antigas, sonhos que nunca ousaram nascer em voz alta, dores sem linguagem, pensamentos que não sobreviveriam ao ar do mundo. É a vida que não busca aplauso nem compreensão. Ela não pede palco — apenas silêncio. 
 
    Curiosamente, é nesse território invisível que algo parecido com a verdade costuma habitar. 
 
    Porque tanto na vida pública quanto na privada estamos, de algum modo, reagindo. Respondemos ao mundo, às relações, às circunstâncias. Mas na vida secreta não há necessidade de performance. Ali, ninguém espera nada. Ali, cessam os personagens. Resta apenas o confronto cru entre o que somos e o que sentimos. O silêncio dessa última vida não é vazio — é densidade. 
 
    É no silêncio que percebemos os pensamentos que não ousamos pensar, os sentimentos que não combinam com nossa biografia, as perguntas que jamais faríamos em voz alta. O silêncio funciona como um espelho sem moldura: não embeleza, não distorce, não negocia. Apenas devolve. Talvez por isso tanta gente tema o silêncio. 
 
    O ruído externo — conversas, distrações, tarefas, telas — oferece uma espécie de refúgio. Enquanto há barulho, ainda podemos sustentar as versões confortáveis de nós mesmos. Mas quando tudo se cala, a vida secreta se ergue. E ela não é complacente. Ela revela fissuras, desmonta certezas, expõe ausências. No silêncio, não somos quem parecemos ser; somos quem não conseguimos evitar ser. 
 
    A tragédia e a beleza da condição humana talvez estejam exatamente aí. 
 
    Vivemos tentando harmonizar três existências que raramente coincidem. A vida pública busca aceitação. A privada busca abrigo. A secreta busca verdade. E a verdade, quase sempre, é indócil demais para ser plenamente exibida ou compartilhada. 
 
    Sendo assim, aquilo que mostramos ao mundo é apenas uma fração organizada. Aquilo que dividimos com os íntimos é uma fração tolerável. Mas aquilo que ecoa no silêncio — essa matéria sem testemunhas — é o que mais se aproxima do núcleo de quem somos. Não porque seja mais puro. Mas porque é o único lugar onde não precisamos mentir. 
 
Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

A inquietação interna contamina tudo

    Quando alguém não encontra paz dentro de si, o mundo inteiro se torna um território estrangeiro. Nenhum lugar acolhe, nenhum abraço repousa, nenhum silêncio consola. A inquietação interna contamina tudo: até os instantes felizes parecem frágeis, como se algo estivesse sempre prestes a ruir. 
 
    Há uma ilusão comum em acreditar que a paz mora fora — em outra cidade, em outro amor, em outra fase da vida. Mas quem carrega tempestades no próprio peito descobre, cedo ou tarde, que mudar de cenário não altera o clima da alma. Apenas se troca a paisagem que assiste ao mesmo conflito. 
 
    A ausência de paz interior não é barulho; muitas vezes é um cansaço profundo, uma sensação de desalinho, como viver permanentemente fora do próprio lugar. E nessa condição, até as conquistas perdem o sabor, porque não existe um espaço interno capaz de recebê-las. 
 
    A paz não é encontrada como quem encontra um objeto perdido. Ela é construída, escavada, enfrentada. Exige confronto com medos antigos, com vazios evitados, com verdades que doem. É um trabalho silencioso e, por vezes, solitário. 
 
    Porque, no fim, nenhum refúgio externo consegue abrigar quem ainda não aprendeu a habitar a si mesmo. E talvez a verdadeira serenidade comece justamente aí: no difícil, lento e corajoso gesto de fazer do próprio interior um lugar possível de permanecer. 
 
Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense