Quando o amor passa a ser interpretado sob a lógica econômica, algo essencialmente humano sofre uma mutação silenciosa. O que antes era experiência, encontro, vulnerabilidade, transforma-se em transação. No contexto do chamado “capitalismo religioso”, essa mutação adquire contornos ainda mais delicados, porque toca o território do sagrado — justamente o espaço que muitas tradições espirituais afirmam ser incompatível com a lógica da compra e venda.
A fé, em sua dimensão mais profunda, nasce de uma relação com o mistério, com o sentido, com aquilo que não pode ser plenamente medido. Já o mercado exige cálculo, equivalência, previsibilidade. Quando essas duas esferas se fundem de maneira extrema, surge uma tensão: aquilo que deveria ser vivido como graça corre o risco de ser reinterpretado como investimento; a devoção, como estratégia; a esperança, como ativo simbólico.
Nesse cenário, o amor deixa de ser um fim em si mesmo e passa a funcionar como promessa de retorno — emocional, social ou até financeiro. A espiritualidade, então, pode ser instrumentalizada: crê-se não apenas por convicção íntima, mas pela expectativa de recompensa. O problema não está na legítima busca humana por melhoria de vida ou conforto, mas na transformação da experiência espiritual em mecanismo de troca, onde o divino parece responder às mesmas regras de eficiência e produtividade que regem o consumo.
Há também uma consequência subjetiva importante. Se a bênção é percebida como resultado de mérito econômico ou de performance religiosa, a frustração torna-se culpa individual. A ausência de prosperidade pode ser interpretada como falha moral, enfraquecendo a complexidade das condições sociais e existenciais. A fé, que poderia ser espaço de acolhimento, corre o risco de se tornar arena de comparação e ansiedade.
Não precisamos negar a materialidade da vida nem demonizar instituições religiosas. Podemos, porém, questionar: o que acontece quando categorias de mercado colonizam dimensões simbólicas e afetivas? Que tipo de relação com o sagrado se constrói quando até o amor parece depender de lógica contratual? E, sobretudo, que perdas humanas se acumulam quando aquilo que é, por natureza, gratuito, passa a ser percebido como produto?
Talvez o ponto mais sensível seja lembrar que nem tudo que tem valor pode ter preço. Amor, fé, sentido, pertencimento — essas experiências estruturam a existência justamente porque escapam à mensuração estrita. Reduzi-las a equivalências econômicas pode oferecer uma sensação de controle, mas empobrece sua densidade. O desafio contemporâneo não é eliminar o mercado nem negar a realidade econômica, e sim impedir que sua lógica se torne a única linguagem possível para interpretar o humano e o transcendente.
Preservar o amor e a fé como espaços de gratuidade não é ingenuidade; é uma forma de resistência simbólica. É afirmar que há dimensões da vida que não podem ser totalmente capturadas por sistemas de troca — e que talvez residam aí, justamente, as experiências mais decisivas da condição humana.
Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense






