quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

O crescimento pessoal

    Crescimento pessoal raramente tem a dramaticidade que imaginamos. Não chega como uma revelação súbita, nem como um marco visível capaz de dividir a vida em antes e depois. Ele se infiltra de maneira quase silenciosa, diluído nos dias comuns, escondido na repetição das horas. É menos como um relâmpago e mais como a erosão paciente da água sobre a pedra. 
 
    Há uma certa frustração humana em aceitar isso. Somos atraídos pela ideia de transformação instantânea porque ela poupa o desconforto do processo. Queremos acordar diferentes, livres de vícios, medos e contradições. Mas a realidade é menos indulgente: mudar exige convivência prolongada consigo mesmo. Exige observar-se com uma honestidade que nem sempre é confortável. 
 
    Os pequenos passos, justamente por serem pequenos, costumam passar despercebidos. Uma reação contida onde antes havia impulso. Um silêncio escolhido em vez de uma discussão inútil. Uma decisão aparentemente banal que, sem alarde, reposiciona o rumo inteiro da existência. O crescimento habita esses gestos modestos, quase invisíveis, que não rendem aplausos nem reconhecimento imediato. 
 
    E talvez seja esse o aspecto mais difícil: crescer é, muitas vezes, um ato solitário e interno. Não há plateia para validar o esforço diário de pensar melhor, de agir com mais lucidez, de rever crenças antigas. A rotina, que muitos acusam de ser inimiga da transformação, é na verdade o seu laboratório mais fiel. É no meio das tarefas repetidas, dos encontros habituais, dos mesmos cenários, que se testam novas maneiras de ser. 
 
    Reflexões sinceras têm um papel crucial nesse percurso. Não aquelas reflexões grandiosas, feitas em momentos de crise, mas as discretas, quase íntimas, em que alguém admite para si mesmo: “há algo em mim que precisa ser revisto.” Esse tipo de lucidez não produz espetáculo, mas produz deslocamentos profundos. É um trabalho lento de desmontagem e reconstrução. 
 
    Crescer, portanto, não é tornar-se outra pessoa, mas aproximar-se, pouco a pouco, de uma versão mais consciente de si. É um movimento de lapidação, não de ruptura. Algo que acontece enquanto a vida aparentemente segue igual — e talvez justamente por isso seja tão poderoso. Porque quando percebemos, não houve um único dia de mudança, mas uma sequência de dias em que escolhemos, quase sem perceber, não permanecer os mesmos. 
 
Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

O realista olha e descreve

    Ser realista é, em tese, um gesto de humildade diante do mundo. É aceitar que a realidade não se curva aos nossos desejos, que os fatos não se deixam dobrar por entusiasmo, fé ou boa vontade. O realista olha e descreve. Não enfeita, não suaviza, não inventa consolos. Mas, curiosamente, quando essa postura é levada às últimas consequências, o realista quase sempre recebe outro nome: pessimista. 
 
    Talvez porque o realismo, quando honesto, frequentemente desagrada. A realidade raramente é tão generosa quanto nossas expectativas. Há mais frustração que êxtase, mais rotina que epifania, mais perdas que milagres. O olhar que reconhece isso pode parecer sombrio, quando na verdade apenas se recusa a participar de certas ilusões coletivas. O pessimista, nesse sentido, não seria alguém que vê o mundo pior do que ele é, mas alguém que suspeita que o mundo não é tão bom quanto gostaríamos de acreditar. 
 
    Existe também um incômodo quase moral na palavra “pessimismo”. Como se enxergar limites, riscos e precariedades fosse uma falha de caráter, e não uma forma de lucidez. A esperança é celebrada; a cautela, frequentemente confundida com negatividade. No entanto, há uma serenidade própria em quem não espera demais. Quem espera pouco sofre menos com o inevitável, surpreende-se mais com o improvável e, paradoxalmente, pode até experimentar uma forma mais sóbria de gratidão. 
 
    O conflito surge porque o realismo toca em algo que preferimos evitar: a indiferença do mundo. A vida não garante sentido, justiça ou coerência. Muito do que acontece não obedece a méritos nem a narrativas reconfortantes. Admitir isso é desconfortável. Chamar essa admissão de “pessimismo” talvez seja uma maneira elegante de manter distância, como se rotular o olhar crítico bastasse para invalidá-lo. 
 
    Mas há um outro modo de compreender essa tensão. O realismo não precisa ser inimigo da esperança; apenas a desloca. Em vez de esperar que o mundo seja benigno por natureza, o realista pode escolher pequenas esperanças, locais, quase artesanais: gestos, encontros, instantes. Não uma esperança ingênua, que nega a dureza da existência, mas uma esperança consciente, que persiste apesar dela. 
 
    Ser chamado de pessimista pode carregar menos acusação do que parece. Pode significar apenas que se trocou o conforto das ilusões pela franqueza do olhar. E talvez exista uma estranha forma de dignidade nisso — a dignidade de quem encara o mundo sem garantias, sem promessas grandiosas, mas ainda assim permanece, observa, sente e, de algum modo silencioso, continua. 
 
Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Um pacto silencioso

    Há um momento em que o mundo deixa de falar e passa a gritar. Tudo chama ao mesmo tempo: telas, vozes, urgências artificiais, promessas de sentido embaladas em segundos. Nesse coro incessante, nada se aprofunda — não por falta de vontade, mas por falta de silêncio. 
 
    A profundidade exige demora. Exige permanecer quando o impulso é escapar. Mas onde tudo chama ao mesmo tempo, permanecer parece desperdício. Aprende-se a tocar muitas superfícies, mas esquece-se o peso de afundar. A atenção vira trânsito: passa, observa, segue. Não cria raízes. 
 
    Pensar, sentir, amar — tudo isso pede exclusividade temporária. Um pacto silencioso entre quem olha e o que é olhado. Quando esse pacto é quebrado a cada instante, a experiência se fragmenta. O pensamento vira opinião rápida, o afeto vira reação, a dor vira ruído. Nada sangra o bastante para transformar. 
 
    Há também um medo escondido nessa dispersão: aprofundar é correr o risco de encontrar algo que não se pode abandonar depois. A superficialidade protege. Ela permite fugir antes que algo nos nomeie, antes que uma ideia, um sentimento ou uma verdade nos exija mudança. 
 
    Onde tudo chama ao mesmo tempo, vive-se ocupado, mas raramente comprometido. Vive-se informado, mas pouco tocado. E talvez o maior empobrecimento não seja a falta de tempo, mas a incapacidade de escolher uma única coisa — e dizer ao resto do mundo, ainda que por instantes: agora, não. 
 
    Porque só quando o barulho cessa é que algo começa a descer. E só quando algo desce, de fato, é que passa a nos pertencer. 
 
Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Prisão confortável

    Há um ponto extremo da existência em que a perda deixa de ser ausência e se torna espaço. Quando tudo cai — nomes, promessas, papéis, expectativas, até a imagem que sustentávamos de nós mesmos — resta algo incômodo e nu: o ser sem amarras. 
 
    Enquanto possuímos algo, pertencemos a ele. O medo de perder nos governa com mais rigor do que qualquer lei. Defendemos cargos, afetos, certezas, versões de nós mesmos, não porque nos salvam, mas porque nos mantêm previsíveis. A posse cria fronteiras invisíveis: não posso ir além, porque ainda tenho algo a preservar. 
 
    Mas quando tudo se perde, algo se rompe por dentro. O mundo já não tem nada para nos tirar. A ameaça se esvazia. O fracasso deixa de ser um abismo e vira chão. Nesse instante raro e doloroso, nasce uma liberdade que não é conquista, é consequência. 
 
    A liberdade que surge da perda não é triunfal — é silenciosa. Ela não promete felicidade, apenas possibilidade. Sem o peso do que fomos, podemos escolher quem ser sem pedir permissão ao passado. O gesto deixa de ser cálculo. A decisão deixa de ser defesa. Agimos não para manter, mas para existir. 
 
    Por isso, a perda total assusta tanto: ela não nos destrói apenas; ela nos devolve a nós mesmos. E isso exige coragem. Ser livre depois de perder tudo é encarar a própria responsabilidade sem muletas, sem álibis, sem heranças emocionais. É descobrir que nada nos impede — exceto o medo de finalmente sermos inteiros. 
 
    Talvez seja por isso que tantos preferem uma prisão confortável a uma liberdade vazia. Porque a liberdade absoluta não oferece garantias. Ela apenas abre a porta e diz: agora, vá — e seja. 
 
Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Deus está tão perto

    Há uma distância que nenhum amor humano consegue atravessar. Um limite invisível onde o toque falha, a palavra tropeça, o olhar não alcança. Mesmo quem nos conhece por dentro — quem sabe nossos medos, manias e silêncios — ainda chega atrasado a certos abismos da alma. 
 
    É nesse ponto que um pensamento real revela sua verdade mais desconcertante: ninguém é capaz de chegar tão perto que Deus não esteja ainda mais perto
 
    Quando alguém se aproxima demais, Deus já habita o que essa pessoa não vê. Quando um abraço parece suficiente, Deus já sustenta o que o abraço não cura. Quando somos finalmente compreendidos, Deus já nos compreendia antes mesmo da confissão. 
 
    Há pensamentos que não ousamos dizer. Culpas que não encontram idioma. Dores que nem nós sabemos explicar. E ainda assim, ali — antes da forma, antes do nome, antes da coragem — Deus já está. 
 
    Isso não diminui os encontros humanos; ao contrário, dá a eles um limite sagrado. O outro não é Deus. Não pode ser salvação, nem morada definitiva. Pode ser passagem, sinal, companhia — mas nunca substituto. 
 
    Talvez o maior alívio dessa verdade seja este: não estamos condenados a depender totalmente do alcance humano. Mesmo quando ninguém entende, Deus entende. Mesmo quando ninguém fica, Deus permanece. Mesmo quando ninguém chega, Ele já chegou. 
 
    E talvez seja por isso que a solidão mais profunda não é ausência de pessoas, mas esquecimento dessa proximidade silenciosa. Porque no ponto exato em que nos sentimos inalcançáveis, Deus está perigosamente perto — não para invadir, mas para sustentar aquilo que nem nós conseguimos segurar. 
 
Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense

sábado, 7 de fevereiro de 2026

O justo desamparado?

    "Fui moço e agora sou velho; mas nunca vi desamparado o justo, nem a sua descendência mendigar o pão". Salmos 37. 25.

    Esse versículo carrega o peso sereno de quem atravessou o tempo e aprendeu a olhar a vida com menos pressa e mais verdade. Há nele uma voz que não fala a partir da teoria, mas da experiência: alguém que foi moço, que conheceu a inquietação dos começos, e que agora é velho, portador de uma memória longa o suficiente para discernir o essencial. 

    Quando o salmista afirma que nunca viu o justo desamparado, ele não nega a existência da dor, da escassez ou das perdas. O que ele afirma é algo mais profundo: a fidelidade de Deus não se mede pela ausência de sofrimento, mas pela presença constante de cuidado, mesmo nos dias em que tudo parece frágil. O justo pode atravessar desertos, mas não caminha sem companhia. Pode enfrentar a fome simbólica da alma, mas não é abandonado à própria sorte. 

    Há também uma dimensão de esperança que ultrapassa o indivíduo. A promessa não se encerra na vida de quem crê, ela alcança a descendência. Isso sugere que a justiça vivida hoje deixa rastros no amanhã. A fé praticada em silêncio, a integridade mantida quando ninguém vê, o bem feito sem aplausos — tudo isso constrói um chão firme para aqueles que vêm depois. Não é apenas pão material que não falta, mas dignidade, memória e sentido. 

    Esse salmo nos convida a confiar em um tempo maior do que o nosso imediatismo. Ele nos ensina que algumas respostas só se revelam quando olhamos para trás e percebemos que, mesmo sem notar, fomos sustentados. Às vezes o pão não veio como abundância, mas veio como o suficiente. Às vezes não foi livramento, mas força para atravessar. 

    Dessa forma, a reflexão que emerge é simples e profunda: viver com justiça é confiar que, mesmo quando tudo parece incerto, existe uma fidelidade que não falha. E essa fidelidade, ainda que discreta, atravessa gerações. 

Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Envelhecer é um retorno

    Envelhecer é um processo extraordinário porque não acontece apenas no corpo — acontece, sobretudo, na consciência. Não se trata de acumular anos, mas de depurar camadas. Cada ruga é menos um disfarce, cada silêncio mais honesto do que muitas palavras ditas na juventude. 
 
    No início da vida, somos moldados pelo que esperam de nós. Aprendemos a caber, a agradar, a correr atrás de versões ideais que quase nunca nos pertencem. Com o tempo, porém, algo se desloca: o peso da aprovação alheia cansa, as urgências artificiais perdem força, e começamos a ouvir uma voz antiga que sempre esteve ali, mas foi abafada pelo barulho do mundo. 
 
    Envelhecer é, então, um retorno. Um reencontro com aquilo que fomos antes das concessões excessivas, antes do medo de errar, antes da necessidade constante de provar valor. Não é que nos tornemos alguém novo — tornamo-nos, finalmente, inteiros. Aprendemos a escolher com mais cuidado, a amar com menos ilusão e mais verdade, a dizer “não” sem culpa e “sim” sem pressa. 
 
    Há perdas, sim. O tempo cobra seu preço. Mas há ganhos silenciosos e profundos: a capacidade de reconhecer o que importa, de aceitar limites sem humilhação, de compreender que nem toda batalha merece ser travada. Envelhecer é perceber que força não é rigidez, é flexibilidade; não é pressa, é permanência. 
 
    Envelhecer é um gesto de fidelidade a si mesmo. Um processo lento e, por vezes, doloroso, mas profundamente justo. É quando deixamos de tentar ser tudo para o mundo e passamos, enfim, a ser quem sempre deveríamos ter sido para nós. 
 
Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense