sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Somos passageiros nesta vida

    Vivemos como quem segura água nas mãos. A vida escorre pelos dedos enquanto acreditamos, ingenuamente, que ainda a possuímos. Fazemos planos longos em uma existência curta, adiamos afetos como se o tempo fosse um contrato renovável. Mas o tempo não negocia — ele apenas passa. 
 
    Na chamada modernidade líquida, nada parece feito para durar. Relações dissolvem-se ao menor desconforto, identidades são trocadas como roupas, certezas evaporam. Tudo é flexível, tudo é substituível, tudo é provisório. E, paradoxalmente, nunca estivemos tão exaustos. Há uma pressa silenciosa em existir. Corre-se sem saber exatamente para onde, acumula-se sem saber exatamente por quê. O instante perdeu densidade. Vive-se muito, sente-se pouco. Conecta-se com todos, aprofunda-se em quase ninguém. 
 
    A brevidade da vida, que deveria nos despertar para o essencial, muitas vezes apenas intensifica a ansiedade. Queremos experimentar tudo, ser tudo, viver tudo — e acabamos habitando uma sucessão de superfícies. A abundância de possibilidades transforma-se em escassez de sentido. 
 
    Talvez o drama não esteja na vida ser curta, mas em ser dispersa. Porque uma vida breve pode ser imensa, se houver presença. Um encontro pode ser eterno, se houver verdade. Um momento pode ser pleno, se houver entrega. O que dilui a existência não é o tempo limitado, mas a atenção fragmentada. 
 
    No mundo líquido, resistir talvez seja um ato quase subversivo. Resistir é permanecer. É aprofundar. É aceitar que nem tudo precisa ser rápido, nem tudo precisa ser novo, nem tudo precisa ser descartável. É compreender que finitude não é urgência cega — é convite à lucidez. 
 
    Somos passageiros, sempre fomos. Mas ainda podemos escolher se atravessaremos o tempo como quem apenas consome dias ou como quem realmente os habita. Porque, no fim, a vida não é medida pela duração, mas pela intensidade com que tocamos — e somos tocados — enquanto ela passa. 
 
Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense

Nenhum comentário:

Postar um comentário