"Fui moço e agora sou velho; mas nunca vi desamparado o justo, nem a sua descendência mendigar o pão". Salmos 37. 25.
Esse versículo carrega o peso sereno de quem atravessou o tempo e aprendeu a olhar a vida com menos pressa e mais verdade. Há nele uma voz que não fala a partir da teoria, mas da experiência: alguém que foi moço, que conheceu a inquietação dos começos, e que agora é velho, portador de uma memória longa o suficiente para discernir o essencial.
Quando o salmista afirma que nunca viu o justo desamparado, ele não nega a existência da dor, da escassez ou das perdas. O que ele afirma é algo mais profundo: a fidelidade de Deus não se mede pela ausência de sofrimento, mas pela presença constante de cuidado, mesmo nos dias em que tudo parece frágil. O justo pode atravessar desertos, mas não caminha sem companhia. Pode enfrentar a fome simbólica da alma, mas não é abandonado à própria sorte.
Há também uma dimensão de esperança que ultrapassa o indivíduo. A promessa não se encerra na vida de quem crê, ela alcança a descendência. Isso sugere que a justiça vivida hoje deixa rastros no amanhã. A fé praticada em silêncio, a integridade mantida quando ninguém vê, o bem feito sem aplausos — tudo isso constrói um chão firme para aqueles que vêm depois. Não é apenas pão material que não falta, mas dignidade, memória e sentido.
Esse salmo nos convida a confiar em um tempo maior do que o nosso imediatismo. Ele nos ensina que algumas respostas só se revelam quando olhamos para trás e percebemos que, mesmo sem notar, fomos sustentados. Às vezes o pão não veio como abundância, mas veio como o suficiente. Às vezes não foi livramento, mas força para atravessar.
Dessa forma, a reflexão que emerge é simples e profunda: viver com justiça é confiar que, mesmo quando tudo parece incerto, existe uma fidelidade que não falha. E essa fidelidade, ainda que discreta, atravessa gerações.
Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense

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