sábado, 14 de fevereiro de 2026

Para que fui despertado?

    “…o Espírito do SENHOR apoderou-se de Gideão…” Juízes 6. 34.
 
    Há algo de profundamente humano e inquietante nessa frase. Ela não descreve apenas um toque divino, mas uma invasão de sentido. Como se, por um instante, a vida deixasse de ser conduzida pelo medo e passasse a ser movida por um eixo invisível, porém irresistível. 
 
    Gideão surge na narrativa não como herói, mas como alguém escondido — malhando trigo no lagar, um gesto quase simbólico de sua própria condição. Ele vive comprimido pela opressão, reduzido à lógica da sobrevivência. Seu potencial existe, mas não encontra espaço. Está soterrado sob camadas de insegurança, trauma coletivo, e uma autoimagem fraturada. Antes de ser libertador de Israel, Gideão é prisioneiro de si mesmo. 
 
    O detalhe mais perturbador da história é que o céu o chama de “homem valente” quando tudo em sua realidade aponta para o contrário. A identidade que lhe é atribuída antecede a identidade que ele acredita possuir. É como se o olhar divino enxergasse não o que Gideão é, mas o que nele insiste em querer nascer. 
 
    E então vem o momento decisivo: “…o Espírito do SENHOR apoderou-se de Gideão…” 
 
    Não é Gideão quem se ergue por bravura repentina. Não é autoconfiança súbita. Não é uma transformação psicológica comum. O texto sugere algo mais radical: uma energia que o envolve, que o desloca, que rompe o campo gravitacional do medo. A coragem não nasce dele — passa através dele. 
 
    Essa é uma inversão poderosa. 
 
    Costumamos imaginar que primeiro vem a certeza, depois a ação. Em Gideão, a ordem se rompe. Primeiro vem o sopro, depois vem o caminho. Primeiro o chamado, depois a compreensão. Primeiro o movimento, depois a confiança. O Espírito não recompensa a força; ele desperta a força que dormia sob o peso da dúvida. 
 
    Há também um aspecto silenciosamente revolucionário: Deus não escolhe Gideão apesar de sua fragilidade, mas dentro dela. A hesitação não o desqualifica. As perguntas não o afastam. O medo não o torna inútil. Pelo contrário — o cenário da insuficiência humana se torna o palco da ação divina. 
 
    Talvez a grande mensagem não seja que Gideão tinha um potencial oculto. Talvez seja que quase todo potencial humano é oculto — até que algo maior o convoque. 
 
    O “apoderar-se” do Espírito não anula a humanidade de Gideão. Ele ainda teme, ainda questiona, ainda pede sinais. Mas algo mudou no centro de gravidade de sua existência. O medo deixa de ser senhor. A possibilidade passa a governar. 
 
    Gideão nos confronta com uma verdade desconfortável: há em muitos de nós uma vida inteira esperando autorização para emergir. 
 
    Vivemos no lagar — escondidos em rotinas, receios, versões diminuídas de nós mesmos. E, no entanto, a narrativa sugere que a transformação não começa com um esforço heroico de autossuperação, mas com uma rendição ao sopro que nos chama pelo nome que ainda não ousamos carregar. 
 
    “…o Espírito do SENHOR apoderou-se de Gideão…” 
 
    Talvez esse seja o instante em que um homem deixa de perguntar “Quem sou eu?” e começa a responder “Para que fui despertado?” 
 
Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense

Nenhum comentário:

Postar um comentário