A dor nunca passa sem deixar vestígios. Ela atravessa as pessoas como um rio subterrâneo: não se vê da superfície, mas altera todo o terreno por dentro. O curioso é que a mesma dor nunca produz o mesmo resultado. Diante dela, cada um se transforma de um jeito — como se o sofrimento fosse um espelho que devolve não o que somos, mas o que estamos dispostos a nos tornar.
Alguns endurecem. Criam cascas grossas, aprendem a falar com menos afeto, a confiar com mais cautela. Não é frieza gratuita — é defesa. A dor, quando repetida, ensina que sentir demais custa caro. Então esses aprendem a sentir menos, ou ao menos a demonstrar menos, como quem fecha as janelas para impedir novas tempestades.
Outros se tornam silenciosos. Não porque não tenham o que dizer, mas porque descobrem que certas dores não cabem em palavras. O silêncio vira abrigo. Eles observam mais, falam menos, carregam histórias que nunca serão contadas por inteiro. Não é ausência — é profundidade. É quem aprendeu que nem toda verdade precisa ser explicada para existir.
Há também os que se tornam sábios. Não no sentido grandioso, mas no essencial. A dor os ensina a reconhecer limites, a respeitar o tempo do outro, a compreender fragilidades. São pessoas que não romantizam o sofrimento, mas o transformam em compreensão. Aprendem que quase todo mundo carrega batalhas invisíveis e, por isso, escolhem a empatia em vez do julgamento.
Sendo assim, a dor não define quem somos, mas revela caminhos possíveis. Ela pode nos fechar, nos calar ou nos ampliar. Não é a dor em si que decide — é o que fazemos com ela quando ninguém está olhando.
Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense

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