"Livra-me dos meus inimigos, ó Deus; põe-me fora do alcance dos meus agressores. Livra-me dos que praticam o mal e salva-me dos assassinos". Salmos 59. 1,2.
Essa súplica nasce de um lugar profundamente humano: o instante em que alguém se sente cercado, vulnerável, ameaçado não apenas por forças externas, mas pela própria experiência do medo. O clamor do salmista não é um grito de vingança, mas um pedido de proteção. Há algo de íntimo e quase desesperado nessa súplica: “põe-me fora do alcance”. Não é o desejo de destruir o inimigo, mas de sobreviver a ele.
Nesse trecho do Livro de Salmos, o inimigo pode ser lido de muitas formas. Pode ser alguém concreto, uma injustiça sofrida, uma perseguição real. Mas também pode ser aquilo que nos invade por dentro: angústias, culpas, pensamentos que nos atacam silenciosamente. Nem todo agressor tem rosto; alguns habitam a mente, outros se escondem nas circunstâncias da vida.
O texto revela uma verdade delicada: reconhecer que precisamos ser livrados é admitir nossa fragilidade. Vivemos em uma cultura que exalta autossuficiência, mas o salmista ora justamente porque sabe que não basta a própria força. Há momentos em que resistir sozinho é impossível. A oração, então, torna-se um gesto de lucidez, não de fraqueza.
Também é significativo que o pedido seja dirigido a Deus e não aos próprios recursos. O salmo sugere confiança em uma justiça maior, em uma proteção que transcende o controle humano. É quase como dizer: “há perigos que não sei enfrentar, caminhos que não sei ver, livra-me do que não consigo evitar”.
Essa súplica ecoa em qualquer tempo porque o sentimento de ameaça é universal. Todos, em algum momento, conhecem a sensação de estar exposto — emocionalmente, socialmente, existencialmente. O salmo oferece linguagem para esse estado de alma. Ele legitima o medo sem glorificá-lo, transforma o desespero em diálogo.
No fundo, o que vibra nesses versos não é apenas o medo do mal, mas o desejo de preservação da vida. É a esperança de que, mesmo em meio à hostilidade, exista refúgio. Uma afirmação silenciosa de que a violência, externa ou interna, não precisa ter a última palavra.
Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense

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