Há um poder silencioso em quem aprende a calar. Não o silêncio da omissão covarde, mas aquele que nasce da consciência de si. Ser rei do próprio silêncio é escolher quando falar, por que falar e, sobretudo, para quem falar. É dominar o impulso antes que ele nos domine.
As palavras, quando soltas sem governo, criam correntes invisíveis. Elas nos comprometem, nos expõem, nos aprisionam a versões de nós mesmos que talvez não queiramos sustentar. Uma frase dita no calor do instante pode durar mais do que a intenção que a gerou. E, depois de ditas, as palavras já não nos pertencem — passam a circular no mundo com força própria.
O silêncio, ao contrário, preserva. Ele é território íntimo, espaço de escuta e de elaboração. Nele, o pensamento amadurece, o sentimento se reconhece e a verdade se depura. Quem reina sobre o silêncio não é vazio; é profundo. Observa mais do que reage. Escolhe mais do que se justifica.
Ser escravo das palavras é falar para preencher ausências, para provar algo, para não encarar o desconforto do intervalo. É confundir voz com presença, ruído com sentido. Já o silêncio bem habitado não apaga ninguém — revela. Revela firmeza, discernimento e uma liberdade rara: a de não precisar dizer tudo.
Na verdade, a maturidade talvez more aí: entender que nem toda verdade precisa ser pronunciada, nem todo pensamento merece som. Porque há uma dignidade serena em quem guarda o silêncio como coroa — e não como mordaça.
Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense

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