“Faça tudo com inspiração.
Isso dará vida aos seus méritos e alento às suas palavras.” Baltasar Gracián
Essa premissa convida a algo mais profundo do que simplesmente fazer bem feito. Ela sugere que o verdadeiro valor das ações não está apenas no resultado, mas no espírito que as move. Há uma diferença enorme entre realizar um gesto por obrigação e realizá-lo por implicação íntima — quando o coração, mesmo silencioso, inclina a vontade para aquilo que faz sentido.
Inspirar-se é permitir que algo acima do pragmatismo nos atravesse: um ideal, uma beleza, um sentido, um entusiasmo, até mesmo uma dúvida que provoca. Quando a inspiração está presente, mesmo tarefas miúdas ganham brilho; mesmo palavras comuns se tornam duradouras; mesmo méritos modestos se tornam dignos de memória.
Sem inspiração, os méritos são apenas currículos: listas de feitos, medalhas frias, conquistas contabilizadas. Com inspiração, tornam-se frutos: carregam sabor, perfume e destino. É a inspiração que dá vida ao mérito, porque revela que ele não é apenas alcançar algo, mas transformar algo — e, frequentemente, transformar a nós mesmos no processo.
O mesmo vale para as palavras. Uma frase pode estar formalmente correta e ainda assim vazia; pode ser eloquente e ainda assim não tocar. Somente quando a inspiração sopra é que a palavra se torna ponte — ponte entre mente e mente, entre espírito e espírito. Ela consola, levanta, inquieta, ilumina, lembra, cura.
A inspiração não é privilégio dos gênios, dos artistas ou dos santos. Ela está disponível a quem se aproxima das coisas com atenção, curiosidade e abertura. Ela nasce quando não se faz apenas para terminar, mas para desvelar; não apenas para cumprir, mas para realizar; não apenas para agradar, mas para significar.
Talvez essa seja a chave: o sentido. A inspiração é o sentido pulsando na forma. É o sopro que transforma o útil em belo, o correto em verdadeiro, o diário em extraordinário.
E ao fim, a premissa se torna conselho:
— Faça tudo com inspiração.
Não para ser maior do que os outros, mas para ser inteiro em tudo que faz.
Porque a inspiração é o que salva o fazer do vazio e salva o falar do silêncio inútil.
É ela que dá vida ao mérito e alento à palavra.
E talvez seja isso que chamamos de viver com alma.
Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense

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