O silêncio recatado é a parte mais sagrada da sabedoria porque, antes de qualquer palavra nascer, há um mundo inteiro que já se formou por dentro. Quem observa o silêncio não está em ausência — está em gestação: dos pensamentos, dos discernimentos, das escolhas e das intenções. O silêncio não é vazio; é a câmara onde a mente depura o excesso, decanta ilusões e prepara o entendimento.
A sabedoria raramente se mostra ruidosa. Ela se move com a discrição das águas profundas, que não anunciam sua força mas moldam o tempo. O silêncio recatado é o lugar da paciência, da escuta e da contemplação — três virtudes que são raras justamente porque exigem renúncia: renúncia ao imediatismo da opinião, à vaidade da explicação e à urgência do julgamento.
Quem fala antes de silenciar costuma dizer o que não sabe; quem silencia antes de falar, por vezes, diz até o que não precisa. Há algo de sagrado nesse recolhimento porque ele mantém o ser humano em diálogo com aquilo que não se vê — suas motivações, seus medos, seus encantos e suas sombras. Só o silêncio pode ouvi-los sem espanto.
Por fim, o silêncio recatado é sagrado porque não quer convencer ninguém. Ele nada quer conquistar; quer apenas compreender. E compreender é, talvez, a forma mais pura de sabedoria — aquela que dispensa o triunfo, o aplauso e a plateia, mas que transforma quem a carrega por dentro.
Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense

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