A brevidade da vida não é apenas uma constatação filosófica — é uma experiência íntima, sentida sobretudo nos intervalos: quando o dia termina antes que a tarefa se conclua, quando alguém parte antes que haja despedida, quando percebemos que a memória tem mais capítulos do que o futuro parece prometer. Nada disso deveria nos assustar, e ainda assim assusta, porque o tempo não retrocede e não aceita justificativas.
Viver com consciência da brevidade não significa correr, esgotar-se, acumular feitos ou colecionar vitórias como quem tenta provar algo ao mundo. Significa, ao contrário, depurar: escolher o essencial, aprender a dizer não ao supérfluo, dar lugar ao que tem densidade. É um exercício de silêncio e clareza, quase um modo de sobrevivência contra as distrações que nos afastam do que realmente importa.
A importância de aproveitar bem o tempo não está em fazer mais, mas em viver melhor. Há um tipo de desperdício que se manifesta em horas gastas com ressentimentos, expectativas alheias, medos herdados, e há um tipo de ganho que se manifesta em gestos mínimos: uma conversa verdadeira, um olhar que acolhe, um perdão que liberta, uma decisão que devolve sentido. O tempo não precisa ser longo para ser pleno; basta ser inteiro.
A brevidade também nos ensina a aceitar que nem tudo será concluído, que algumas histórias permanecerão abertas e que certas perguntas não terão resposta. Isso não é fracasso; é condição humana. A vida não é uma obra acabada, e talvez a dignidade esteja justamente em seguir compondo, mesmo sabendo que não veremos o quadro final.
Por isso, aproveitar o tempo não é apenas usufruí-lo — é ressignificá-lo. É permitir que cada instante carregue algo daquilo que somos, e algo daquilo que desejamos ser. É lembrar que, embora o destino seja o mesmo para todos, o caminho nunca é. E se não podemos prolongar os dias, ao menos podemos aprofundá-los.
Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense

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