segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

O tempo é irreversível

    O tempo que se perde não é apenas um intervalo marcado no relógio; é a vida que se escoa silenciosamente. Quando nos entregamos às distrações banais — aquelas que não acrescentam à nossa alma, não despertam nosso pensamento, não aquecem o coração — estamos, na verdade, consentindo em viver pela metade. O instante, que poderia ser fecundo, transforma-se em vazio. 
 
    O que torna essa perda tão dolorosa é o seu caráter irreversível. Não há como retornar ao ontem e ressignificá-lo. O tempo não admite devoluções. Ele é fluxo, não estoque; rio, não poço. Por isso, cada momento banalizado não é apenas um “nada” vivido, mas um “tudo” que deixou de existir. A cada escolha de futilidade, sacrificamos possibilidades: o livro não lido, a conversa não tida, o silêncio não experimentado, o afeto não oferecido. 
 
    No entanto, paradoxalmente, é essa consciência da finitude que pode nos despertar. Saber que não recuperaremos o tempo é o que nos chama à responsabilidade de cada instante. O tempo não volta, mas o presente se abre a cada segundo, renovando-se diante de nós. O ontem está perdido, mas o agora é ainda puro campo de criação. 
 
    Assim, talvez a verdadeira sabedoria não esteja em lamentar o que já se foi, mas em compreender que cada distração banalizada é um alerta: um lembrete de que não podemos viver como se a vida fosse ensaio, quando ela já é a peça em ato. 
 
    O tempo perdido não retorna, mas pode ensinar — e se aprendermos com ele, talvez os próximos instantes sejam habitados com mais presença, mais silêncio e mais verdade. 
 
Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense

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