quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Mudar não é trair o passado

    A mudança é o nome que damos ao instante em que o mundo se recusa a permanecer confortável. Ela não pede licença, não consulta nossas certezas, não respeita o apego que temos ao que já conhecemos. A mudança acontece — e, ao acontecer, revela uma verdade incômoda: nada foi feito para durar do modo como imaginamos. 
 
    Vivemos como se a estabilidade fosse um direito adquirido. Construímos rotinas, ideias e identidades como quem ergue muralhas contra o tempo. Mas o tempo não cerca cidades; ele passa por dentro delas. A mudança não vem de fora — ela brota no coração das coisas. O que chamamos de crise é apenas o momento em que deixamos de negar esse movimento. 
 
    Há quem veja a mudança como perda. E, de fato, algo sempre se perde. Mas talvez a perda não seja um castigo, e sim um preço justo. Para mudar, é preciso abrir mão da ilusão de controle. É preciso aceitar que crescer não é acumular, mas desprender-se. Aquilo que não se transforma apodrece, mesmo que pareça intacto. 
 
    A mudança nos expõe. Retira nossos rótulos, nossas narrativas prontas, nossos papéis bem ensaiados. Diante dela, não somos o que dizíamos ser, mas o que conseguimos sustentar quando o chão se move. Por isso dói: porque ela nos obriga a escolher entre permanecer fiéis a uma versão antiga de nós mesmos ou ousar descobrir quem ainda podemos ser. 
 
    No entanto, resistir à mudança não é permanecer o mesmo — é apenas mudar para pior. O medo nos torna rígidos, e a rigidez nos torna frágeis. O que se dobra sobrevive à tempestade; o que se recusa a ceder, quebra. A sabedoria não está em evitar a mudança, mas em aprender a caminhar com ela. 
 
    Mudar não é trair o passado. É honrá-lo, permitindo que ele não seja um peso morto, mas um alicerce. O passado só se torna prisão quando insistimos em morar nele. A mudança nos convida a transformar memória em aprendizado, dor em consciência, queda em direção. 
 
    No fim, a mudança é menos um evento e mais uma postura. Não é algo que nos acontece, mas algo que escolhemos acolher. Quando paramos de perguntar “por que isso está mudando?” e começamos a perguntar “o que isso está me ensinando?”, deixamos de ser vítimas do tempo e nos tornamos seus aprendizes. 
 
    E talvez seja isso que significa amadurecer: não exigir que o mundo permaneça igual, mas ter coragem suficiente para mudar junto com ele — sem perder a essência, mas aceitando que até a essência precisa, às vezes, aprender a respirar de outro jeito. 
 
Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense

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