Leia. Leia muito.
Não como quem foge do mundo, mas como quem se arma para habitá-lo.
O mundo está ficando raso. As frases são curtas demais, as ideias descartáveis demais, as opiniões nascem prontas e morrem no mesmo dia. Tudo é imediato, tudo é ruído. E, nesse barulho constante, pensar se tornou um ato quase subversivo.
Ler é resistir a essa desertificação do espírito.
É recusar a preguiça mental que transforma pessoas em repetidores de slogans. Quando você lê, você desacelera o tempo. Obriga o pensamento a caminhar, não a correr. E caminhar, hoje, é um gesto de coragem.
Cada livro é um diálogo silencioso com alguém que não está mais aqui — ou que ainda nem nasceu. Ler é sentar-se à mesa com mortos ilustres e vivos inquietos. É ouvir Dostoiévski falar sobre culpa, Machado sussurrar ironias sobre o caráter humano, Clarice te puxar para dentro de si mesmo, como um espelho desconfortável. Eles atravessaram guerras, misérias, ditaduras, amores e ruínas — e deixaram pistas.
Quem lê não fica imune à estupidez do mundo, mas cria anticorpos. Aprende a desconfiar do óbvio, a perceber nuances, a entender que o ser humano é mais complexo do que qualquer rótulo. A leitura ensina que quase nada é simples — e que desconfiar das certezas absolutas é sinal de inteligência, não de fraqueza.
Ler também dói. Porque amplia a consciência. Mostra contradições, revela injustiças, desmonta ilusões confortáveis. Mas é uma dor fértil. É a dor de quem cresce por dentro.
Num mundo que grita, ler é escutar.
Num mundo que corre, ler é parar.
Num mundo que empobrece o pensamento, ler é enriquecer a alma.
Leia porque, sem livros, o presente se torna tirano.
Leia porque quem não dialoga com o passado acaba prisioneiro do agora.
Leia porque a ignorância pode até ser barulhenta — mas o silêncio de uma mente bem lida atravessa o tempo.
Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense

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