Tem uma diferença profunda entre dar certo e ter sido sensato. Um ato de insensatez pode, por acaso, terminar bem, mas o seu desfecho favorável não transforma a imprudência em sabedoria.
Muitas vezes, confundimos resultado com virtude.
Se alguém toma uma decisão precipitada e, por alguma circunstância inesperada, tudo termina bem, logo dizemos: “Viu? No fim deu certo.” Mas isso é uma armadilha do nosso próprio raciocínio. O fato de termos escapado das consequências não significa que a escolha tenha sido correta. Às vezes, simplesmente tivemos sorte.
O insensato pode atravessar uma ponte frágil e chegar ao outro lado. Mas a sua chegada não tornou a ponte segura. Pode dirigir em alta velocidade e não sofrer acidente. Isso não transforma a imprudência em prudência. Pode confiar em alguém sem examinar seu caráter e, por acaso, não ser enganado. Isso não significa que confiar cegamente tenha sido sábio.
O resultado não reescreve a natureza do ato.
Há decisões que mereciam ter terminado em desastre, mas terminaram em livramento. E talvez seja justamente aí que esteja uma das maiores ilusões da vida: pensar que, porque fomos preservados das consequências, Deus ou o destino aprovou aquilo que fizemos.
A experiência deveria nos ensinar o contrário. Quando uma atitude insensata termina bem, não deveríamos dizer: “Eu estava certo.” Talvez devêssemos dizer: “Eu fui imprudente e, felizmente, não precisei pagar o preço da minha imprudência.”
A diferença é enorme.
A sabedoria não consiste em fazer coisas perigosas e sair ileso. Consiste em reconhecer o perigo antes de entrar nele. Não é atravessar o abismo e agradecer por não ter caído; é ter discernimento suficiente para não brincar à beira dele.
Por isso, nem todo testemunho de sucesso deve ser imitado. Algumas histórias que terminam bem não são exemplos de coragem, mas advertências contra a imprudência.
Um ato de insensatez que acaba bem continua sendo um ato de insensatez. O livramento pode ter sido grande, mas a sabedoria estaria em aprender com ele, e não em repetir o erro porque, desta vez, nada aconteceu.
Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense


