"Pois a sabedoria entrará em seu coração, e o conhecimento será agradável à sua alma." - Provérbios 2. 10
Escutar é um ato dos sentidos; saber ouvir é um exercício da alma. Escutamos porque os sons chegam até nós, porque alguém fala, porque uma palavra atravessa o espaço e alcança nossos ouvidos. Mas ouvir verdadeiramente exige mais: exige presença, atenção e disposição para compreender aquilo que nem sempre foi dito.
Há quem escute apenas para responder. Enquanto o outro fala, já prepara mentalmente a própria defesa, a própria opinião, a própria história. Nesse caso, as palavras passam pelos ouvidos, mas não encontram morada. A pessoa ouviu o som, mas não acolheu o significado.
Saber ouvir é silenciar, por alguns instantes, a necessidade de ter razão. É permitir que o outro exista dentro de sua própria narrativa, sem imediatamente corrigi-lo, julgá-lo ou compará-lo conosco. Às vezes, ouvir alguém não significa concordar com aquilo que ela diz; significa apenas reconhecer que aquela pessoa tem algo a dizer e que sua experiência merece ser compreendida.
Também existe aquilo que não é pronunciado. Quem sabe ouvir percebe o silêncio, a pausa, a hesitação, a mudança no tom da voz. Há pessoas que dizem “estou bem” enquanto seus olhos dizem exatamente o contrário. Há dores que não conseguem transformar-se em frases. Há pedidos de ajuda escondidos atrás de uma conversa aparentemente banal.
Quem sabe por isso saber ouvir seja uma forma silenciosa de amor. Quando ouvimos verdadeiramente, dizemos ao outro, sem precisar pronunciar: “Eu estou aqui. Sua palavra importa. Você não precisa enfrentar tudo sozinho.”
Vivemos em uma época em que muitos querem ser ouvidos, mas poucos estão dispostos a ouvir. Todos desejam espaço para suas opiniões, suas dores e suas certezas. Entretanto, uma sociedade que apenas fala e não escuta transforma o diálogo em disputa e a convivência em competição.
Escutar é receber o som. Saber ouvir é receber a pessoa.
E uma das maiores formas de sabedoria é justamente aprender a ouvir não apenas aquilo que alguém diz, mas aquilo que, por medo, orgulho, vergonha ou sofrimento, ainda não conseguiu dizer.
Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense

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