A democracia moderna se vende pela razão, mas opera pela imaginação — e, sobretudo, pela imaginação já pré-formatada. No ideal iluminista, o cidadão é um ser deliberativo: pesa argumentos, avalia programas, escuta o contraditório, forma juízo e decide. Na prática, porém, a arena política transformou-se num teatro de estímulos curtos, slogans moduladores de afeto, imagens que condensam moralidades instantâneas e narrativas que distraem mais do que informam.
A racionalidade ainda existe, mas deixou de ser o motor principal. O eleitor-consumidor delega sua razão ao atalho emocional: um gesto, um bordão, um meme, um “nós contra eles”, um medo difuso, um ideal indistinto. A política, percebendo isso, aperfeiçoou-se como indústria de fabricação de consensos — não através do debate, mas pela gestão das percepções. Não é o argumento que convence, é a impressão; não é o fato, é o enquadramento; não é a ideia, é o símbolo.
Nesse sentido, a democracia contemporânea funciona como uma economia estética: a disputa é por atenção, não por verdade; por adesão afetiva, não por coerência intelectual. Campanhas não buscam mais explicar, mas organizar emoções — e o fazem com a precisão de uma psicotécnica. Criam imagens mentais prontas para colar: o líder como “pai”, o adversário como “traidor”, a nação como “ferida”, o futuro como “ameaça” ou “redenção”. A razão entra tarde, quando a narrativa já está escolhida.
Essa estética da política não implica necessariamente mentira — mas implica simplificação. A realidade é complexa demais para o tempo cognitivo do cidadão, e a democracia precisa funcionar mesmo assim. A solução encontra-se no design de consenso: simplificar o mundo para torná-lo governável pela opinião. Trata-se menos de iluminar a realidade e mais de torná-la digerível.
O paradoxo é que a democracia exige cidadãos racionais, mas sobrevive graças a dispositivos que poupam o cidadão de exercer racionalidade plena. A deliberação não desapareceu — migrou para dentro de laboratórios de comunicação, institutos de pesquisa, equipes de marketing, think tanks, algoritmos de segmentação. Esses espaços, e não a ágora, produzem as matrizes do que depois parecerá “opinião pública”.
No fim, o voto é um ato racional apenas na superfície. É um gesto simbólico moldado por uma gramática emocional anterior ao argumento. Eis por que slogans se tornam mais influentes que livros; memes, mais eficazes que manifestos; imagens, mais penetrantes que estatísticas. A democracia moderna fala à razão, mas conquista pelo afeto — e, nessa operação, a política torna-se cada vez mais uma arte do imaginário e cada vez menos um exercício da razão pública.
Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense

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