A vida não nos poupa das tempestades. Elas chegam sem pedir licença, erguem ventos onde havia rotina, arrancam certezas, inundam o chão que julgávamos firme. O erro não está em sentir o medo, o cansaço ou a dor; o erro está em permitir que a tempestade se instale dentro de nós, como se fosse morada permanente.
O equilíbrio interno não é ausência de conflito, mas a capacidade de não se confundir com ele. Quando perdemos o centro, reagimos ao mundo como folhas soltas: qualquer vento nos lança para longe de quem somos. Quando o preservamos, mesmo feridos, continuamos enraizados. Há uma diferença profunda entre atravessar a tempestade e ser a tempestade.
Todas passam. Algumas lentamente, outras com fúria breve. O que permanece é aquilo que fazemos enquanto elas nos cercam. A serenidade não impede o raio, mas impede que ele nos transforme em ruína. Receber a adversidade com lucidez é recusar o desespero como resposta automática. É escolher não devolver violência ao mundo quando o mundo nos fere.
Ser sereno não é ser passivo. É observar antes de agir, respirar antes de decidir, silenciar antes de responder. É confiar que a turbulência não define o desfecho, apenas o percurso. Quem mantém o equilíbrio aprende algo essencial: a tempestade revela mais sobre nossa estrutura do que sobre nossa sorte.
No fim, o verdadeiro abrigo não está fora. Está nesse espaço íntimo onde o caos não encontra eco. Quem o preserva atravessa ileso não porque nada lhe aconteceu, mas porque nada lhe roubou a essência.
Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense

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