Há uma teologia silenciosa nessa imagem. A luz, antes de ser espetáculo, é vocação. Ela não nasce para competir com outras luzes, nem para medir sua intensidade pela distância que alcança. Na tradição espiritual, a luz não se justifica pelo tamanho da chama, mas pela fidelidade ao ato de iluminar. Uma vela não ilumina menos por estar escondida; ela cumpre plenamente sua missão ao vencer a escuridão imediata que a cerca.
Quando observamos filosoficamente falando, essa premissa confronta a obsessão moderna pela visibilidade. Vivemos como se o valor estivesse sempre ligado ao alcance, ao reconhecimento, ao olhar do outro. Mas o ser não depende do aplauso. A ética da luz discreta ensina que há grandeza no gesto que não vira manchete, no bem que não precisa ser narrado, na verdade que não se impõe aos gritos. Há existências que salvam o mundo em silêncio.
Teologicamente, a luz não é propriedade do indivíduo — ela é dom. O erro não está em brilhar pouco, mas em esconder a chama por medo, vaidade ou ressentimento. O farol sobre a colina não escolhe ser visto; ele apenas permanece aceso, fiel à sua função. Do mesmo modo, a vela no canto não reivindica protagonismo: ela aceita o lugar onde foi posta e ali se consome, não por vaidade, mas por amor à luz.
Há também um chamado à humildade ontológica. Nem todos serão faróis, e isso não é fracasso. A criação não exige uniformidade, mas harmonia. Um mundo feito apenas de faróis seria cego; um mundo feito apenas de velas, desorientado. A sabedoria está em reconhecer o próprio alcance sem desprezá-lo nem inflá-lo.
No fim, deixar a luz brilhar é um ato de fidelidade ao que se é. Não se trata de escolher entre grandeza e pequenez, mas entre autenticidade e apagamento. Seja vela ou farol, o que importa não é quantos veem a luz, mas que a escuridão — em algum ponto do mundo ou da alma — não permaneça intacta.
Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense

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