domingo, 25 de janeiro de 2026

O refúgio silencioso

    Uma biblioteca pode ser um refúgio porque ela suspende o mundo sem negá-lo. Ao atravessar suas portas, o ruído do cotidiano não desaparece por completo, mas se torna distante, como uma chuva vista pela janela. Lá dentro, o tempo obedece a outra lógica: não corre, não empurra, não cobra. Ele espera. 
 
    Entre estantes, o silêncio não é vazio — é povoado. Cada livro carrega vozes que falam sem exigir resposta imediata, histórias que acolhem sem perguntar quem somos ou de onde viemos. Para quem vive deslocado, cansado ou ferido, isso é um abrigo raro: um lugar onde é possível existir sem performance, sem defesa. 
 
    A biblioteca também protege porque oferece múltiplas vidas quando a nossa parece estreita demais. Em dias de dor, há quem encontre consolo em uma frase sublinhada décadas antes por um desconhecido. Em dias de confusão, um parágrafo pode organizar o caos interior melhor do que qualquer conselho direto. Não é fuga: é reorganização da alma. 
 
    Há ainda o gesto quase ritual de sentar-se com um livro aberto. O corpo desacelera, a respiração se ajusta, os pensamentos se alinham à cadência das palavras. Nesse momento, o mundo exterior perde a urgência, e o leitor se reconcilia consigo mesmo. A biblioteca permite isso: a intimidade em meio ao coletivo, a solidão que não dói. 
 
    Talvez por isso bibliotecas sejam refúgios para quem sente demais, pensa demais ou lembra demais. Elas não prometem felicidade, mas oferecem compreensão. Não curam feridas, mas ensinam a nomeá-las. E às vezes, nomear é o primeiro passo para suportar. 
 
    No fim, uma biblioteca é um refúgio porque guarda algo precioso e cada vez mais raro: a possibilidade de silêncio, profundidade e encontro — não apenas com os livros, mas com aquilo que somos quando ninguém está nos observando. 
 
Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense

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