quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Agradecer por uma vida inteira

    A pessoa satisfeita não é aquela a quem a vida poupou das contradições, mas a que aprendeu a degustá-las. Descobriu — às vezes cedo, às vezes tarde — que o doce sem amargo cansa, enjoa, se torna trivial. E que o amargo, sozinho, vira veneno. Satisfação não é o excesso de uma coisa, mas a medida possível entre duas. 
 
    Há quem confunda satisfação com triunfo ou plenitude permanente. Como se estar bem fosse um estado fixo, um degrau acima da turbulência humana. Mas quem viveu um pouco sabe que estar satisfeito é mais parecido com saber ouvir o chiado entre duas estações de rádio: não é perfeito, não é limpo, mas dá música. 
 
    Aceitar o amargo com o doce é reconhecer que as perdas, as frustrações, os acasos e os atrasos não são acidentes no percurso — são parte do gosto. O que amadurece uma pessoa não é a vitória em si, é o intervalo depois dela; não é o amor correspondido, mas o que sobra dele quando passa; não é a alegria pura, mas o que se aprende quando ela se mistura com cansaço e responsabilidade. 
 
    A satisfação não é um prêmio, é uma atitude. Uma disposição discreta de não exigir que o mundo seja sempre gentil para que a vida valha a pena. É saber que haverá dias de azedume e que, ainda assim, vale cultivar um pouco de doçura — porque o paladar também educa o espírito. Quem só quer o açúcar da existência provavelmente nunca entendeu seu sabor. Quem só coleciona amarguras, perde a graça de estar vivo. 
 
    Por isso, a pessoa satisfeita não celebra apenas o que deu certo; celebra também o que deu errado e, mesmo assim, ensinou. Sabe que o prato é completo quando traz contraste. E que a maturidade consiste menos em desejar uma vida perfeita e mais em agradecer por uma vida inteira — onde o amargo tempera, o doce reconforta e ambos, juntos, fazem sentido. 
 
Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense

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