"Por que me fazes ver a injustiça, e contemplar a maldade? A destruição e a violência estão diante de mim; há luta e conflito por todo lado". Habacuque 1.2.
Essa é uma das perguntas mais antigas e inquietantes da experiência humana, uma pergunta que ecoa tanto na filosofia quanto na teologia, e que atravessa séculos como uma ferida aberta: se Deus existe, por que o mal, tantas vezes, parece recompensado?
Na tradição bíblica, essa angústia não é escondida, ela é proclamada. No livro de Jó, um homem justo sofre sem causa aparente, enquanto, no Salmo 73, o salmista confessa sua perturbação ao ver os ímpios prosperarem, saudáveis, ricos, aparentemente intocados pela dor. A fé, nesse sentido, não nasce da negação do problema, mas do confronto com ele.
Filosoficamente, essa questão toca o chamado problema do mal: se Deus é justo, bom e onipotente, por que permite a injustiça? Uma das respostas clássicas aponta para a liberdade humana. O mundo, sendo habitado por seres livres, carrega também a possibilidade do desvio. Os perversos prosperam não porque Deus os favorece, mas porque o tecido da realidade permite escolhas, e suas consequências nem sempre são imediatas.
Mas essa resposta, embora racional, muitas vezes não consola. Porque o escândalo não está apenas na existência do mal, mas na sua aparente vantagem.
Aqui, algumas tradições teológicas oferecem outra perspectiva: a de que a prosperidade dos perversos é, na verdade, ilusória ou temporária. Em Eclesiastes, há uma percepção amarga de que tudo é vaidade, riqueza, poder, glória, como névoa que se dissipa. O que parece triunfo pode ser apenas um atraso na justiça, não sua negação.
Já pensadores como Santo Agostinho argumentavam que o mal não possui existência própria, sendo uma corrupção do bem. Assim, a prosperidade do perverso não é sinal de plenitude, mas de desordem interior, uma espécie de sucesso externo que encobre uma falência invisível.
Por outro lado, há também uma leitura mais existencial e inquietante: talvez a justiça divina não opere nos mesmos tempos nem nas mesmas métricas que a humana. O que chamamos de prosperidade, dinheiro, poder, status, pode não ser, do ponto de vista eterno, prosperidade alguma. E o sofrimento dos justos, embora incompreensível no presente, pode carregar um sentido que escapa ao imediato.
Essa tensão leva alguns a uma conclusão desconfortável: viver eticamente não é uma garantia de recompensa visível. A justiça, nesse mundo, é frequentemente fragmentária. E ainda assim, a fé, para quem a sustenta, não se apoia na evidência da recompensa, mas na confiança de que há uma ordem mais profunda que ainda não se revelou por completo.
No fim, essa pergunta talvez não tenha uma resposta que encerre o problema, mas uma que o aprofunde:
se o mal prospera, o que significa escolher o bem mesmo assim?
Talvez aí resida o núcleo mais radical da espiritualidade, não na promessa de equilíbrio imediato, mas na fidelidade ao justo, mesmo quando o mundo parece inclinar-se ao contrário.
Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense