O autoengano é uma forma silenciosa de desordem interior. Quando tentamos enganar a nós mesmos, não estamos apenas escondendo uma verdade — estamos tentando sequestrar a própria capacidade de vê-la. E o mais perigoso nesse processo não é a mentira em si, mas o conforto que ela oferece. Mentiras para terceiros exigem certa habilidade; mentiras para nós mesmos exigem coragem para sustentar uma ilusão.
O autoengano geralmente nasce de um medo: medo de perder algo, de encarar um limite, de admitir a responsabilidade, de reconhecer que não somos exatamente quem imaginávamos. O medo empurra, a fantasia acolhe, e a mentira interna se instala como um casulo. A princípio nos protege. Mas proteção é diferente de crescimento, e o casulo, se não for rompido, se torna prisão.
O risco maior é que o autoengano não apenas distorce a visão do mundo — ele altera nossa própria identidade. Ao renunciar à verdade, mesmo que por autopiedade ou conveniência, abandonamos a capacidade de nos reconhecer. Ficamos cindidos: uma parte sabe, outra finge não saber. E essa fratura cria sofrimento, mesmo quando bem disfarçado.
Enganar-se é perigoso porque adia o inevitável. A verdade não desaparece; apenas se esconde, acumulando juros. Um dia volta, e quanto mais tarde chega, mais cara cobra. Por isso o autoengano é sempre uma dívida moral com o próprio futuro.
Há ainda um perigo mais sutil: o autoengano nos impede de escolher. Sem ver o que é, não podemos decidir o que fazer. E viver sem decisão é viver no piloto automático, movido por forças não questionadas — hábitos, fantasmas emocionais, expectativas alheias. O autoengano, nesse sentido, não é apenas uma mentira; é uma abdicação de liberdade.
E, no entanto, somos tentados a ele porque é humano fugir do que dói. Talvez o antídoto não seja heroísmo, mas honestidade gradual — pequenas doses de verdade, tomadas sem violência. Um olhar sincero para o que sentimos, mesmo quando não gostamos do que vemos. A coragem de admitir um engano antes que ele se torne destino.
Em última instância, não há punição maior do que viver longe de si. O autoengano promete alívio, mas entrega ausência. E ninguém escapa para sempre de se encontrar — seja pela dor, seja pela lucidez. Melhor que seja pela segunda.
Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense

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