Onde o tempo governa sozinho, a alma perde o eixo — porque o tempo, quando não é atravessado pela consciência, deixa de ser caminho e se torna correnteza. Ele arrasta, não conduz. O ser humano passa a existir em função do próximo instante, e não do sentido do que vive. Vive-se para cumprir, não para compreender.
Sem pausa, não há assimilação. A experiência exige repouso para se tornar memória, e a memória precisa de quietude para virar sabedoria. Aquilo que não é interrompido não se transforma; apenas se acumula. Assim, o excesso de movimento produz um paradoxo cruel: quanto mais se vive, menos se entende o que foi vivido. O tempo corre, mas nada se fixa. Tudo passa, nada permanece.
Sem silêncio, não há pensamento. O ruído contínuo — de vozes, tarefas, expectativas — ocupa o espaço onde a reflexão deveria nascer. Pensar é um gesto lento, quase arcaico, que exige distância do mundo para enxergá-lo com clareza. O silêncio não é ausência: é o terreno fértil onde as ideias criam raízes. Quando ele desaparece, o pensamento se torna reativo, superficial, incapaz de profundidade.
Nesse regime onde o tempo reina sem contrapeso, a alma se desorienta. Ela perde a noção de antes e depois, de dentro e fora. Torna-se funcional, mas não inteira. A urgência substitui o propósito, e o instante passa a valer mais do que o significado. O ser humano, então, deixa de habitar o tempo e passa a ser habitado por ele.
Recuperar o eixo da alma é um ato de resistência silenciosa. É devolver ao tempo o seu lugar de ferramenta, não de soberano. É reaprender a parar, a calar, a permanecer. Porque só onde há pausa nasce o sentido; só onde há silêncio emerge o pensamento; e só onde o tempo encontra limites a alma volta a se reconhecer.
Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense

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