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terça-feira, 24 de março de 2026

A leitura e a escrita para mim

    Ler, para mim, é um encontro íntimo com aquilo que eu ainda não vivi ou, talvez, com aquilo que vivi, mas nunca soube nomear. Quando abro um livro, sinto como se atravessasse uma porta invisível. De repente, estou dentro de outras vidas, outros tempos, outras dores. E, no entanto, algo sempre ecoa em mim. Como se cada história, no fundo, também fosse minha. Ao terminar, percebo que não sou o mesmo que começou. Há sempre um pequeno deslocamento, uma mudança sutil, como se alguma parte de mim tivesse sido reescrita em silêncio. 
 
    Escrever é diferente. Escrever sou eu tentando me alcançar. É quando aquilo que me inquieta, que pulsa e não encontra forma, finalmente ganha corpo nas palavras. Nem sempre sei exatamente o que quero dizer, muitas vezes, descubro enquanto escrevo. É um processo estranho e bonito: começo com um sentimento difuso, quase um sussurro, e, aos poucos, ele se transforma em algo que posso ver, tocar, reler. Escrever, para mim, é um ato de coragem, porque há sempre algo de mim ali, mesmo quando invento, mesmo quando disfarço. 
 
    O prazer está justamente nesse movimento entre dentro e fora. Quando leio, eu me expando, torno-me múltiplo, atravessado por vozes que não são minhas. Quando escrevo, eu me recolho, tento dar sentido ao que sou, ao que sinto, ao que me escapa. E nesse vai e vem, encontro um equilíbrio raro, quase um abrigo. 
 
    Às vezes penso que, se não lesse e não escrevesse, muita coisa em mim permaneceria muda. Como se eu carregasse um mundo inteiro sem linguagem. Ler me revela. Escrever me constrói. E, nesse ciclo, vou me tornando alguém que não apenas passa pela vida, mas a observa, a sente e, de algum modo, a transforma em algo que pode permanecer. 
 
Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense

quarta-feira, 13 de agosto de 2025

O prazer da escrita

    Escrever é um ato paradoxal: ao mesmo tempo íntimo e expansivo. É íntimo porque nasce de dentro — de memórias, percepções e sentimentos que às vezes nem sabíamos que estavam lá. É expansivo porque, ao ganhar forma em palavras, aquilo que era apenas nosso passa a habitar o mundo, tocando outros de maneiras que não podemos prever. 
 
    O prazer da escrita não está apenas no resultado final, mas no próprio processo: no momento em que uma frase se encaixa perfeitamente, no instante em que uma imagem surge tão viva que parece que podemos tocá-la, no suspiro de alívio ao capturar uma emoção fugidia antes que escape. É como moldar argila invisível, sentindo que cada palavra acrescentada aproxima a obra de um sentido mais profundo — ainda que esse sentido seja apenas o de existir. 
 
    E há algo quase secreto nisso: escrever é conversar consigo mesmo, mas com a ousadia de deixar a porta entreaberta para que o outro ouça. É dar forma ao caos interno, transformar dor em beleza, memória em história, e silêncio em voz. O prazer está em saber que, mesmo que ninguém leia, você já se encontrou nas linhas que traçou. 
 
Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense

terça-feira, 3 de janeiro de 2023

O voo da águia

    “A águia voa sozinha, os corvos voam em bando, o tolo tem necessidade de companhia, e o sábio necessidade de solidão”. (Friedrich Rückert) 
 
    A cada manhã que acordo nos últimos dias tenho sentido uma sensação de alívio e paz na minha alma. Algumas de minhas decisões mais íntimas foram cruciais para que eu alcançasse esse patamar. Durante anos fui prisioneiro de minha incapacidade de viver sozinho e isso era o que eu mais precisava. Afinal de contas eu sou um sábio, um pensador. Tenho a mente privilegiada e, para uma boa qualidade de meus escritos, eu necessito dessa paz interior e do silêncio para melhor me expressar. Depois de um tempo sozinho, então, eu estava pronto para compartilhar a vida com outras pessoas, desde que o meu espaço fosse respeitado. 
 
    Acontece que acabamos caindo na rotina do dia a dia e esquecemos que temos uma vida para viver. Então comecei a pensar: afinal de contas quem sou eu: uma revigorante águia ou um simples corvo tolo? A águia nos dá um exemplo bastante interessante. Vive nas alturas e isso faz com que elas enxerguem melhor e mais longe. Isso possibilita que elas tenham uma visão da vida acima dos demais pássaros da natureza. Por outro lado, os corvos só andam em bandos e representa os tolos que precisam de companhia para estar jogando conversa fora. 
 
    Quem são os cultos dessa vida: os que estudam para chegar alcançar um patamar de vida melhor ou aqueles que passam horas nas mesas de bar jogando conversa fora? Qual é o futuro mais cômodo lá na frente? É só parar e perceber o que essa vida passageira oferece. O que dizer então daqueles que abandonam uma expectativa de vida futura para viver sem perspectiva de futuro? Não é possível entender e não é minha intenção julgar as decisões de outrem. Cada um faz da vida o que bem entender. 
 
    Quanto a mim vou seguindo a minha jornada. Às vezes incompreendido e esnobado, mas sei do que sou capaz. As críticas apenas me ajudam a crescer cada vez mais porque sei que só atiram pedras na árvore que tem frutos. A solidão tem me ajudado a colocar meus textos reflexivos em dias e tem me possibilitado ajudar outras pessoas que passam por situação semelhante. Isso é um dom que Deus me deu e sei que o chamado dEle para minha vida é especial. As adversidades dos últimos dias me fizeram entender o propósito dEle na minha vida. Que horas vem a inspiração para escrever? A qualquer momento. E o que fazer? Ter o espaço e a tranquilidade para o fazer. 
 
    Assim como a águia, pretendo voar o mais alto possível e viver uma vida de sentidos e valores. Para isso nasci e para isso vou viver. Quanto a você que me lê nesse momento, a minha indagação para ti é a seguinte: o que você pretende ser: uma águia e ter voos altos ou ser um tolo corvo e ficar na companhia de gente vazia e sem futuro? Responda para você mesmo. 
 
Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense