Tem dias em que o sol parece cansado da própria eternidade.
Ele atravessa o céu como quem carrega um peso invisível, evitando olhar diretamente para a terra, como se conhecesse demais as dores humanas. O sol entorpecido vira o rosto para o outro lado porque até a luz, às vezes, perde a coragem de iluminar certas feridas.
Existe uma melancolia silenciosa nas tardes em que o brilho enfraquece. Como um deus antigo decepcionado com suas criaturas, o sol se recolhe atrás das nuvens e deixa sombras caminharem livres pelas ruas. E nós, pequenos habitantes do tempo, sentimos esse abandono sem compreender exatamente por quê.
Pode ser que o sol vire o rosto porque há excessos de ausências no mundo.
Muita gente vivendo pela metade, sorrindo sem alegria, amando sem permanência. A luz percebe aquilo que fingimos esconder. E quando o peso das máscaras humanas se torna insuportável, ela apenas se afasta em silêncio.
Mas há também beleza nesse gesto cansado do céu.
O sol entorpecido nos ensina que até a claridade precisa descansar. Nem toda luz nasceu para arder continuamente. Às vezes, recuar é apenas uma forma de sobreviver ao próprio fogo.
E quando ele desaparece no horizonte, deixando o mundo suspenso entre o ouro e a sombra, parece sussurrar uma verdade antiga:
até os astros conhecem o desejo de fechar os olhos para a tristeza da existência.
Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense

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