quarta-feira, 27 de maio de 2026

O sol entorpecido que vira o rosto de nós

    Tem dias em que o sol parece cansado da própria eternidade. Ele atravessa o céu como quem carrega um peso invisível, evitando olhar diretamente para a terra, como se conhecesse demais as dores humanas. O sol entorpecido vira o rosto para o outro lado porque até a luz, às vezes, perde a coragem de iluminar certas feridas. 

    Existe uma melancolia silenciosa nas tardes em que o brilho enfraquece. Como um deus antigo decepcionado com suas criaturas, o sol se recolhe atrás das nuvens e deixa sombras caminharem livres pelas ruas. E nós, pequenos habitantes do tempo, sentimos esse abandono sem compreender exatamente por quê. 

    Pode ser que o sol vire o rosto porque há excessos de ausências no mundo. Muita gente vivendo pela metade, sorrindo sem alegria, amando sem permanência. A luz percebe aquilo que fingimos esconder. E quando o peso das máscaras humanas se torna insuportável, ela apenas se afasta em silêncio. 

    Mas há também beleza nesse gesto cansado do céu. O sol entorpecido nos ensina que até a claridade precisa descansar. Nem toda luz nasceu para arder continuamente. Às vezes, recuar é apenas uma forma de sobreviver ao próprio fogo. 

    E quando ele desaparece no horizonte, deixando o mundo suspenso entre o ouro e a sombra, parece sussurrar uma verdade antiga: até os astros conhecem o desejo de fechar os olhos para a tristeza da existência. 

Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense

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