Devemos ser precavidos com a grande ilusão que frequentemente engana o coração humano: julgamos a qualidade de uma decisão pelo resultado que ela produziu. Se o empreendimento prospera, chamamos de prudência aquilo que talvez tenha sido apenas temeridade; se escapamos do perigo, imaginamos que o caminho escolhido era seguro; se a transgressão não trouxe imediatamente sofrimento, persuadimo-nos de que não havia grande mal naquilo que fizemos. Porém, a Providência que nos livra das consequências de nossa insensatez não transforma nossa insensatez em sabedoria. O fato de o homem não ter caído no precipício não significa que tenha sido sábio caminhar à sua beira.
A Escritura nos ensina que “o simples dá crédito a toda palavra, mas o prudente atenta para os seus passos” (Provérbios 14:15). Observe-se que o prudente não é aquele que somente chega ao destino sem sofrer dano; é aquele que atenta para os seus passos. A sabedoria está no caminho antes de estar no resultado. O homem sábio pergunta antes de agir; considera antes de decidir; pesa as consequências antes de colocar os pés na estrada. O insensato, ao contrário, muitas vezes age primeiro e somente depois procura razões para justificar aquilo que fez.
Quantas vezes dizemos: “Eu sabia que daria certo!” quando, na verdade, nada sabíamos! Apenas aconteceu de dar certo. Há uma diferença entre fé e presunção, entre coragem e temeridade, entre confiança em Deus e confiança imprudente em nós mesmos. Aquele que se lança do alto esperando que Deus o sustente não está demonstrando fé; está tentando Deus. Aquele que entra deliberadamente em uma situação perigosa e depois, por ter escapado, afirma que Deus estava com ele, talvez esteja confundindo misericórdia com aprovação.
É possível que Deus nos preserve de consequências que merecíamos. E isso deveria produzir humildade, não orgulho.
Quando o filho pródigo retorna à casa do pai, sua volta não transforma a longa estrada de pecado em uma estrada correta. A graça que o encontrou no fim não santificou os seus desvios. O pai o recebeu com misericórdia, mas o filho não deveria concluir: “Minha partida foi uma boa decisão, pois finalmente voltei para casa.” Não. Sua volta foi boa porque abandonou o caminho errado. O final feliz não justificou o começo insensato; a graça corrigiu aquilo que a insensatez havia destruído.
Também encontramos isso na vida de Davi. Houve momentos em que sua prudência foi admirável, mas houve outros em que sua precipitação trouxe consequências dolorosas. E isso nos ensina que até homens piedosos precisam vigiar seus próprios corações. A experiência passada não nos torna automaticamente sábios para a próxima decisão. Quem caiu uma vez deve aprender a olhar onde pisa, e quem foi preservado de uma queda deve agradecer ainda mais pela mão que o sustentou.
Há, portanto, uma pergunta melhor do que “Deu certo?”. Devemos perguntar: “Foi correto?”
Porque nem tudo aquilo que dá certo é bom, assim como nem tudo aquilo que termina em sofrimento foi errado. José foi vendido por seus irmãos e sofreu injustamente, mas Deus transformou aquele mal em instrumento para um propósito maior. Jó perdeu bens, filhos e saúde, e seu sofrimento não significava que tivesse tomado uma decisão insensata. O resultado imediato de uma escolha não é o tribunal definitivo de sua moralidade.
Devemos julgar nossas ações pela verdade, pela justiça, pela prudência e pela vontade de Deus, e não apenas pela conveniência do desfecho.
Há perigos que Deus permite que atravessemos para nos ensinar dependência. Há erros dos quais Ele nos livra para nos ensinar arrependimento. Há portas que se fecham depois de termos insistido em abri-las, e há momentos em que somente olhando para trás percebemos quão misericordioso foi o Senhor em impedir aquilo que desejávamos. Feliz é o homem que, depois de ser preservado de sua própria insensatez, não volta ao mesmo caminho para testar novamente a misericórdia divina.
Não devemos transformar nossos livramentos em licença para novas imprudências.
Se um homem coloca a mão no fogo e não se queima, a conclusão sensata não é que o fogo deixou de ser perigoso. Se alguém semeia pouco e, ainda assim, colhe alguma coisa, isso não significa que a negligência seja um bom método de cultivo. E se alguém toma uma decisão precipitada e, por uma sucessão de circunstâncias favoráveis, alcança um resultado satisfatório, ainda assim deve examinar o coração e reconhecer: “Eu poderia ter errado; apenas fui misericordiosamente preservado.”
Essa é uma lição que o coração orgulhoso reluta em aprender. Gostamos de acreditar que somos sábios porque nossas escolhas não nos destruíram. Mas a verdadeira humildade reconhece que algumas vezes fomos protegidos não porque agimos bem, mas apesar de termos agido mal.
E aqui há uma advertência espiritual ainda mais profunda. Não confundamos a paciência de Deus com aprovação de Deus. O fato de o juízo não ter vindo imediatamente não significa que a conduta seja inocente. Deus pode permitir que o homem caminhe por algum tempo segundo os desejos do próprio coração para que, finalmente, ele perceba a amargura de seus caminhos. O sol que nasce sobre o ímpio não declara que sua impiedade é justa; revela apenas que Deus continua sendo misericordioso.
Portanto, quando uma atitude insensata terminar bem, não glorifique a insensatez. Glorifique a misericórdia.
Não diga: “Eu fiz certo porque nada aconteceu.” Diga: “Eu poderia ter sofrido as consequências do meu erro, mas fui preservado; que Deus me dê sabedoria para não repetir aquilo de que fui misericordiosamente poupado.”
Porque a verdadeira sabedoria não é aprender apenas com aquilo que nos feriu. É aprender também com aquilo que poderia ter nos ferido, mas não feriu.
Uma das formas mais elevadas de prudência é reconhecer que o fato de termos escapado ontem não nos dá permissão para caminhar novamente pelo mesmo precipício amanhã.
Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense

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