A solidão nem sempre chega como abandono. Às vezes, ela vem como silêncio conquistado. Quando o que faz barulho vai embora — pessoas, expectativas, ruídos do mundo, vozes que não nos pertencem — algo finalmente se abre. Não é um vazio imediato, mas um espaço. E é nesse espaço que certos encontros, antes impossíveis, acontecem.
Enquanto há barulho, estamos ocupados reagindo. Tentando agradar, explicar, defender, competir. O excesso de presença alheia nos mantém em superfície, como quem conversa na beira da água sem nunca mergulhar. O barulho distrai, anestesia, protege. Mas também impede. Ele nos poupa do desconforto de estar a sós, porém nos rouba a chance de ouvir aquilo que só sussurra.
A solidão, quando aceita, retira as máscaras sem pedir licença. Ela não conversa alto, não exige performance. Diante dela, não há plateia. E é justamente por isso que alguns encontros — com quem realmente somos, com lembranças esquecidas, com desejos que não ousavam existir — só se dão ali. Não sobreviveriam ao tumulto. Precisam de silêncio como certas sementes precisam de escuridão para germinar.
Há pessoas que só nos encontram quando paramos de fazer ruído por elas. Há verdades que só se aproximam quando cessamos a necessidade de explicá-las. E há um tipo de encontro — o mais decisivo — que acontece quando nos sentamos sozinhos e, pela primeira vez, não tentamos fugir de nós mesmos.
O barulho vai embora, e parece perda. Mas é ganho. Ficam os passos que realmente importam, as vozes que não gritam, as presenças que não disputam espaço. Fica o essencial, que nunca soube fazer alarde. E então entendemos: a solidão não foi ausência de encontros, mas a condição para que os mais profundos, enfim, acontecessem.
Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense

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