Quando alguém não encontra paz dentro de si, o mundo inteiro se torna um território estrangeiro. Nenhum lugar acolhe, nenhum abraço repousa, nenhum silêncio consola. A inquietação interna contamina tudo: até os instantes felizes parecem frágeis, como se algo estivesse sempre prestes a ruir.
Há uma ilusão comum em acreditar que a paz mora fora — em outra cidade, em outro amor, em outra fase da vida. Mas quem carrega tempestades no próprio peito descobre, cedo ou tarde, que mudar de cenário não altera o clima da alma. Apenas se troca a paisagem que assiste ao mesmo conflito.
A ausência de paz interior não é barulho; muitas vezes é um cansaço profundo, uma sensação de desalinho, como viver permanentemente fora do próprio lugar. E nessa condição, até as conquistas perdem o sabor, porque não existe um espaço interno capaz de recebê-las.
A paz não é encontrada como quem encontra um objeto perdido. Ela é construída, escavada, enfrentada. Exige confronto com medos antigos, com vazios evitados, com verdades que doem. É um trabalho silencioso e, por vezes, solitário.
Porque, no fim, nenhum refúgio externo consegue abrigar quem ainda não aprendeu a habitar a si mesmo. E talvez a verdadeira serenidade comece justamente aí: no difícil, lento e corajoso gesto de fazer do próprio interior um lugar possível de permanecer.
Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense

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