Existe uma teoria silenciosa sobre a existência humana: a de que cada pessoa vive não uma, mas três vidas simultâneas.
A primeira é a vida pública — aquela que circula entre olhares, cumprimentos, perfis e expectativas. É a vida polida, organizada, inteligível. Nela, somos traduzidos em papéis: profissão, títulos, opiniões aceitáveis, versões socialmente viáveis de nós mesmos. A vida pública é quase sempre uma narrativa editada. Não necessariamente falsa, mas cuidadosamente filtrada. É o território onde aprendemos a caber.
A segunda é a vida privada — mais morna, mais humana, menos ensaiada. É onde a armadura afrouxa, onde os gestos não precisam de plateia. Aqui vivem os afetos, os cansaços, as contradições domésticas, os medos confessáveis. Ainda assim, mesmo nesse espaço, algo permanece sob vigilância. A vida privada não é completamente nua; ela ainda responde ao medo de ferir, decepcionar ou ser mal compreendido. É um lugar de intimidade, mas não de absoluto desabrigo.
E então existe a terceira vida.
A vida secreta não é simplesmente aquilo que escondemos dos outros. É, muitas vezes, aquilo que mal conseguimos dizer a nós mesmos. Nela residem desejos impronunciáveis, vergonhas antigas, sonhos que nunca ousaram nascer em voz alta, dores sem linguagem, pensamentos que não sobreviveriam ao ar do mundo. É a vida que não busca aplauso nem compreensão. Ela não pede palco — apenas silêncio.
Curiosamente, é nesse território invisível que algo parecido com a verdade costuma habitar.
Porque tanto na vida pública quanto na privada estamos, de algum modo, reagindo. Respondemos ao mundo, às relações, às circunstâncias. Mas na vida secreta não há necessidade de performance. Ali, ninguém espera nada. Ali, cessam os personagens. Resta apenas o confronto cru entre o que somos e o que sentimos.
O silêncio dessa última vida não é vazio — é densidade.
É no silêncio que percebemos os pensamentos que não ousamos pensar, os sentimentos que não combinam com nossa biografia, as perguntas que jamais faríamos em voz alta. O silêncio funciona como um espelho sem moldura: não embeleza, não distorce, não negocia. Apenas devolve.
Talvez por isso tanta gente tema o silêncio.
O ruído externo — conversas, distrações, tarefas, telas — oferece uma espécie de refúgio. Enquanto há barulho, ainda podemos sustentar as versões confortáveis de nós mesmos. Mas quando tudo se cala, a vida secreta se ergue. E ela não é complacente. Ela revela fissuras, desmonta certezas, expõe ausências. No silêncio, não somos quem parecemos ser; somos quem não conseguimos evitar ser.
A tragédia e a beleza da condição humana talvez estejam exatamente aí.
Vivemos tentando harmonizar três existências que raramente coincidem. A vida pública busca aceitação. A privada busca abrigo. A secreta busca verdade. E a verdade, quase sempre, é indócil demais para ser plenamente exibida ou compartilhada.
Sendo assim, aquilo que mostramos ao mundo é apenas uma fração organizada. Aquilo que dividimos com os íntimos é uma fração tolerável. Mas aquilo que ecoa no silêncio — essa matéria sem testemunhas — é o que mais se aproxima do núcleo de quem somos.
Não porque seja mais puro.
Mas porque é o único lugar onde não precisamos mentir.
Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense

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