Há um ponto extremo da existência em que a perda deixa de ser ausência e se torna espaço. Quando tudo cai — nomes, promessas, papéis, expectativas, até a imagem que sustentávamos de nós mesmos — resta algo incômodo e nu: o ser sem amarras.
Enquanto possuímos algo, pertencemos a ele. O medo de perder nos governa com mais rigor do que qualquer lei. Defendemos cargos, afetos, certezas, versões de nós mesmos, não porque nos salvam, mas porque nos mantêm previsíveis. A posse cria fronteiras invisíveis: não posso ir além, porque ainda tenho algo a preservar.
Mas quando tudo se perde, algo se rompe por dentro. O mundo já não tem nada para nos tirar. A ameaça se esvazia. O fracasso deixa de ser um abismo e vira chão. Nesse instante raro e doloroso, nasce uma liberdade que não é conquista, é consequência.
A liberdade que surge da perda não é triunfal — é silenciosa. Ela não promete felicidade, apenas possibilidade. Sem o peso do que fomos, podemos escolher quem ser sem pedir permissão ao passado. O gesto deixa de ser cálculo. A decisão deixa de ser defesa. Agimos não para manter, mas para existir.
Por isso, a perda total assusta tanto: ela não nos destrói apenas; ela nos devolve a nós mesmos. E isso exige coragem. Ser livre depois de perder tudo é encarar a própria responsabilidade sem muletas, sem álibis, sem heranças emocionais. É descobrir que nada nos impede — exceto o medo de finalmente sermos inteiros.
Talvez seja por isso que tantos preferem uma prisão confortável a uma liberdade vazia. Porque a liberdade absoluta não oferece garantias. Ela apenas abre a porta e diz: agora, vá — e seja.
Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense

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