domingo, 15 de fevereiro de 2026

Diante do que Deus nos concede

    Há um tipo de silêncio que só nasce quando o ser humano percebe a desproporção entre o que deseja e o que recebe. Não é o silêncio da frustração, mas o do assombro. Diante das coisas que Deus nos concede — a vida, o tempo, os encontros improváveis, a capacidade de sentir e compreender — os melhores sonhos humanos às vezes parecem pequenos, quase constrangedores. Como se estivéssemos orgulhosos de querer tão pouco. 
 
    Chamamos de grandes sonhos aquilo que cabe em nossas medidas: conquistas, reconhecimentos, seguranças, pequenas eternidades privadas. Sonhos que, embora legítimos, ainda orbitam em torno do nosso próprio centro. Mas a dádiva divina frequentemente rompe essa lógica. Deus concede não apenas aquilo que pedimos, mas aquilo que jamais saberíamos pedir. E é nesse excesso que nasce a vergonha — não a vergonha humilhante, mas a vergonha lúcida de quem enxerga o limite da própria imaginação. 
 
    Há algo de profundamente humano em sonhar, mas também algo de profundamente humano em subestimar. Sonhamos com portas, enquanto Deus nos oferece horizontes. Sonhamos com abrigo, enquanto Ele nos entrega travessias. Sonhamos com respostas, enquanto Ele nos confia mistérios. E então compreendemos que muitos dos nossos sonhos mais nobres ainda eram tentativas tímidas de domesticar a existência. 
 
    Essa percepção não invalida o sonho humano; antes, o purifica. A vergonha aqui é um rito de passagem. É o momento em que o desejo deixa de ser uma lista de carências e se transforma em abertura. Quando o coração entende que não foi feito apenas para querer, mas para acolher. Que não foi criado apenas para projetar futuros, mas para ser surpreendido por eles. 
 
    Talvez o drama não esteja em sonhar pequeno, mas em acreditar que o tamanho do sonho define o tamanho da vida. Diante de Deus, até mesmo nossos sonhos mais grandiosos são apenas esboços. Intenções belas, porém incompletas. E há uma estranha libertação em admitir isso: reconhecer que o sentido não nasce apenas do que idealizamos, mas do que nos é dado — gratuitamente, inesperadamente, imerecidamente. 
 
    No fundo, essa “vergonha” é uma forma de reverência. É o reconhecimento de que existe uma generosidade maior do que nossa ambição, uma inteligência maior do que nossos planos, um bem maior do que nossos desejos mais elevados. E quando essa consciência amadurece, algo se desloca dentro de nós: deixamos de pedir uma vida do tamanho dos nossos sonhos e passamos a desejar sonhos do tamanho da vida que Deus já nos concede. 
 
Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense

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