Ser realista é, em tese, um gesto de humildade diante do mundo. É aceitar que a realidade não se curva aos nossos desejos, que os fatos não se deixam dobrar por entusiasmo, fé ou boa vontade. O realista olha e descreve. Não enfeita, não suaviza, não inventa consolos. Mas, curiosamente, quando essa postura é levada às últimas consequências, o realista quase sempre recebe outro nome: pessimista.
Talvez porque o realismo, quando honesto, frequentemente desagrada. A realidade raramente é tão generosa quanto nossas expectativas. Há mais frustração que êxtase, mais rotina que epifania, mais perdas que milagres. O olhar que reconhece isso pode parecer sombrio, quando na verdade apenas se recusa a participar de certas ilusões coletivas. O pessimista, nesse sentido, não seria alguém que vê o mundo pior do que ele é, mas alguém que suspeita que o mundo não é tão bom quanto gostaríamos de acreditar.
Existe também um incômodo quase moral na palavra “pessimismo”. Como se enxergar limites, riscos e precariedades fosse uma falha de caráter, e não uma forma de lucidez. A esperança é celebrada; a cautela, frequentemente confundida com negatividade. No entanto, há uma serenidade própria em quem não espera demais. Quem espera pouco sofre menos com o inevitável, surpreende-se mais com o improvável e, paradoxalmente, pode até experimentar uma forma mais sóbria de gratidão.
O conflito surge porque o realismo toca em algo que preferimos evitar: a indiferença do mundo. A vida não garante sentido, justiça ou coerência. Muito do que acontece não obedece a méritos nem a narrativas reconfortantes. Admitir isso é desconfortável. Chamar essa admissão de “pessimismo” talvez seja uma maneira elegante de manter distância, como se rotular o olhar crítico bastasse para invalidá-lo.
Mas há um outro modo de compreender essa tensão. O realismo não precisa ser inimigo da esperança; apenas a desloca. Em vez de esperar que o mundo seja benigno por natureza, o realista pode escolher pequenas esperanças, locais, quase artesanais: gestos, encontros, instantes. Não uma esperança ingênua, que nega a dureza da existência, mas uma esperança consciente, que persiste apesar dela.
Ser chamado de pessimista pode carregar menos acusação do que parece. Pode significar apenas que se trocou o conforto das ilusões pela franqueza do olhar. E talvez exista uma estranha forma de dignidade nisso — a dignidade de quem encara o mundo sem garantias, sem promessas grandiosas, mas ainda assim permanece, observa, sente e, de algum modo silencioso, continua.
Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense

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