sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Envelhecer é um retorno

    Envelhecer é um processo extraordinário porque não acontece apenas no corpo — acontece, sobretudo, na consciência. Não se trata de acumular anos, mas de depurar camadas. Cada ruga é menos um disfarce, cada silêncio mais honesto do que muitas palavras ditas na juventude. 
 
    No início da vida, somos moldados pelo que esperam de nós. Aprendemos a caber, a agradar, a correr atrás de versões ideais que quase nunca nos pertencem. Com o tempo, porém, algo se desloca: o peso da aprovação alheia cansa, as urgências artificiais perdem força, e começamos a ouvir uma voz antiga que sempre esteve ali, mas foi abafada pelo barulho do mundo. 
 
    Envelhecer é, então, um retorno. Um reencontro com aquilo que fomos antes das concessões excessivas, antes do medo de errar, antes da necessidade constante de provar valor. Não é que nos tornemos alguém novo — tornamo-nos, finalmente, inteiros. Aprendemos a escolher com mais cuidado, a amar com menos ilusão e mais verdade, a dizer “não” sem culpa e “sim” sem pressa. 
 
    Há perdas, sim. O tempo cobra seu preço. Mas há ganhos silenciosos e profundos: a capacidade de reconhecer o que importa, de aceitar limites sem humilhação, de compreender que nem toda batalha merece ser travada. Envelhecer é perceber que força não é rigidez, é flexibilidade; não é pressa, é permanência. 
 
    Envelhecer é um gesto de fidelidade a si mesmo. Um processo lento e, por vezes, doloroso, mas profundamente justo. É quando deixamos de tentar ser tudo para o mundo e passamos, enfim, a ser quem sempre deveríamos ter sido para nós. 
 
Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense

Nenhum comentário:

Postar um comentário