Existe nesta sentença uma verdade que deveria fazer o coração humano desacelerar. Vivemos em uma época que frequentemente confunde velocidade com coragem, impulsividade com fé e atrevimento com confiança em Deus. O homem precipitado imagina que avançar sem hesitação é sinal de força; mas, muitas vezes, a pressa não é fruto da coragem, é apenas a ausência de discernimento.
Há caminhos diante dos quais até uma criatura celestial caminharia com reverência. Há mistérios diante dos quais o céu se cala. Há territórios da alma em que não devemos entrar com os pés da presunção, mas com os joelhos da oração. Entretanto, o tolo não conhece a santa hesitação. Ele não para para perguntar: “Senhor, este é o Teu caminho?” Ele corre, porque seu próprio desejo já lhe disse que a estrada é segura.
Aí está uma das maiores tragédias do coração humano: queremos frequentemente que Deus abençoe aquilo que já decidimos fazer. Primeiro escolhemos o caminho; depois procuramos uma justificativa espiritual para percorrê-lo. Primeiro abrimos a porta; depois pedimos ao céu que nos proteja das consequências de havê-la aberto. E quando a queda chega, perguntamos por que Deus permitiu aquilo que Ele jamais nos ordenou fazer.
A fé verdadeira não é uma licença para a imprudência. Aquele que confia em Deus não precisa abandonar a razão, desprezar o conselho ou fechar os olhos diante do precipício. O Deus que nos dá fé também nos dá entendimento. A Providência divina não transforma a insensatez em sabedoria. Se existe um abismo à nossa frente, não é sinal de incredulidade permanecer à margem dele; talvez seja precisamente ali que a prudência esteja fazendo sua obra.
Cristo nunca ensinou Seus discípulos a correrem atrás de todo perigo para provar sua coragem. Quando Satanás O levou ao pináculo do templo e sugeriu que Se lançasse abaixo, apelando à promessa dos anjos, o Senhor não transformou a confiança em Deus numa provocação a Deus. Sua resposta foi clara: “Não tentarás o Senhor teu Deus.”
Que palavra severa para uma geração que tantas vezes chama de fé aquilo que, na verdade, é presunção!
Tentar a Deus é exigir que Ele nos livre das consequências de uma desobediência que poderíamos ter evitado. É saltar voluntariamente do telhado e esperar que os anjos façam o trabalho que a prudência teria realizado. É colocar os pés no fogo e depois chamar de perseguição a queimadura que nasceu da própria imprudência.
O tolo entra correndo porque não enxerga o que o prudente vê.
O prudente percebe que há serpentes escondidas sob algumas flores. Vê que certas portas conduzem a quartos sem saída. Sabe que algumas amizades custam caro, que determinados desejos vestem roupas de inocência e que certas oportunidades trazem consigo uma dívida que só aparecerá muito depois de o prazer ter passado.
O pecado raramente aparece diante de nós com seu verdadeiro rosto. Se aparecesse com dentes à mostra, poucos o abraçariam. Por isso ele se veste de promessa, de prazer, de liberdade e até de felicidade. O tentador raramente diz: “Venha e destrua sua vida.” Ele prefere dizer: “Venha apenas um pouco mais; você poderá parar quando quiser.”
Mas há lugares em que o homem deveria parar antes que precise aprender a parar pela dor.
É por isso que a prudência é uma virtude profundamente espiritual. Ela não é covardia. Não é falta de fé. Não é fraqueza de caráter. A prudência é uma das formas pelas quais a sabedoria de Deus protege Seus filhos. O homem sábio não tem vergonha de dizer: “Não sei.” Não tem vergonha de esperar. Não tem vergonha de pedir conselho. Não tem vergonha de recuar quando percebe que avançou na direção errada.
O orgulhoso, porém, considera o recuo uma derrota.
E quantas ruínas nasceram simplesmente porque alguém teve vergonha de voltar!
Tem pessoas que prefeririam perder tudo a admitir que estavam errados. Continuam caminhando porque já caminharam demais; continuam discutindo porque já disseram demais; continuam numa relação porque já investiram demais; continuam numa escolha porque não suportam confessar que escolheram mal.
Mas a graça de Deus também pode ser encontrada no retorno.
O filho pródigo não encontrou a misericórdia do Pai enquanto continuava andando para longe de casa. Ele a encontrou quando “caindo em si”, levantou-se e voltou. Há momentos em que a decisão mais espiritual que podemos tomar é parar, reconhecer nosso erro e regressar.
O céu não se impressiona com nossa velocidade. Deus não mede nossa fidelidade pelo número de portas que atravessamos, mas pela disposição do coração em obedecer à Sua vontade.
Talvez seja por isso que algumas pessoas corram tanto e cheguem tão pouco.
Correm atrás de riquezas e perdem a paz. Correm atrás de reconhecimento e perdem a humildade. Correm atrás de prazeres e perdem a pureza. Correm atrás de pessoas que nunca lhes pertenceram e abandonam aquelas que Deus colocou ao seu lado. Correm atrás do amanhã e descobrem, tarde demais, que negligenciaram o presente que lhes havia sido confiado.
Enquanto isso, o homem que aprendeu a caminhar com Deus sabe que não precisa correr para provar nada.
Ele pode esperar.
Pode ouvir.
Pode orar.
Pode examinar o próprio coração.
Pode dizer “não” quando todos estão dizendo “sim”.
Pode permanecer parado quando todos estão correndo.
Porque quem anda com Deus aprende uma verdade que o mundo raramente compreende: há movimentos que são progresso e há movimentos que são apenas fuga.
E talvez a maior sabedoria não esteja em saber quando avançar, mas em reconhecer quando não devemos dar sequer mais um passo.
Que Deus nos livre da coragem sem sabedoria, da fé sem discernimento e da ousadia sem temor. Que Ele nos conceda olhos capazes de enxergar aquilo que nossos desejos procuram esconder. Que nos dê um coração humilde para ouvir Sua voz antes de seguir a nossa própria.
E quando encontrarmos diante de nós um caminho perigoso, que não sejamos tão tolos a ponto de correr apenas porque outros estão correndo.
Se os anjos temem caminhar ali, talvez seja hora de nós nos ajoelharmos.
Porque, às vezes, o maior ato de fé não é entrar.
É permanecer do lado de fora, até que Deus mostre o caminho.
Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense

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