segunda-feira, 10 de agosto de 2026

O tempo que Deus coloca em nossas mãos

    Há uma grande sabedoria em aprender a trabalhar sem fazer do trabalho o nosso deus, e em aprender a descansar sem fazer do descanso a nossa finalidade. O homem foi criado para servir, mas não foi criado para ser escravo das suas próprias ocupações. Aquele que trabalha honestamente faz bem; aquele que sustenta sua casa, cumpre suas responsabilidades e emprega seus talentos para o bem dos outros está realizando uma obra digna. Contudo, até mesmo uma ocupação legítima pode tornar-se excessiva quando permitimos que ela tome o lugar que deveria pertencer à família, à comunhão com Deus e ao cuidado da própria alma. O trabalho é uma boa ferramenta, mas um mau senhor. 
 
    Deus não nos deu vinte e quatro horas para que todas elas fossem consumidas pelas preocupações deste mundo. O dia possui suas horas, assim como a vida possui suas estações. Há tempo para levantar e tempo para repousar; tempo para semear e tempo para colher; tempo para cuidar das coisas exteriores e tempo para olhar para dentro de nós mesmos. Aquele que não sabe parar pode até ser diligente, mas não necessariamente é sábio. 
 
    Veja como a natureza nos ensina. O campo não produz continuamente sem conhecer o inverno. A terra precisa descansar. A noite sucede ao dia. O corpo precisa do sono. O coração precisa de momentos de quietude. E se Deus estabeleceu ritmos de descanso em sua criação, quem somos nós para imaginar que podemos viver perpetuamente em atividade sem pagar o preço da desordem? Muitos homens dizem: “Trabalho tanto para dar uma vida melhor à minha família.” Mas devemos perguntar: que vida estamos dando àqueles que amamos, se nunca estamos presentes para vivê-la com eles? É possível comprar uma casa maior e, ao mesmo tempo, diminuir a presença dentro dela. É possível proporcionar conforto aos filhos e negar-lhes aquilo que nenhum dinheiro pode comprar: tempo, atenção e companhia. 
 
    Há uma pobreza que não aparece na carteira. É a pobreza de quem possui recursos, mas não possui tempo para desfrutá-los. É a pobreza de quem conquistou bens, mas perdeu a simplicidade. É a pobreza de quem alcançou reconhecimento, mas já não conhece a tranquilidade. É a pobreza daquele que passou tantos anos preparando-se para viver que, quando finalmente chegou o tempo que imaginava ser seu, descobriu que os anos mais preciosos já haviam passado. 
 
    Por isso, precisamos aprender a repartir sabiamente o nosso tempo. Dar ao trabalho aquilo que pertence ao trabalho. Dar à família aquilo que pertence à família. Dar ao descanso aquilo que pertence ao descanso. E, acima de tudo, dar a Deus aquilo que pertence a Deus. Não é sábio entregar ao mundo todas as nossas forças e oferecer a Deus somente o que sobrou delas. 
 
    O homem frequentemente diz que não tem tempo para orar, meditar, ler as Escrituras ou cultivar sua vida espiritual. Entretanto, encontra tempo para aquilo que considera importante. Assim, o problema muitas vezes não é a falta de tempo, mas a desordem das prioridades. Aquilo que amamos encontra espaço em nossa agenda. Se nossa alma nunca encontra tempo para Deus, talvez seja necessário perguntar não quanto tempo temos, mas o que ocupa o primeiro lugar em nosso coração. Também precisamos lembrar que o descanso não é necessariamente desperdício. Há um descanso que restaura o corpo e outro que restaura a alma. Há momentos em que não produzir coisa alguma é precisamente o que precisamos para voltar a produzir melhor depois. 
 
    Nosso Senhor não nos ensina a viver ansiosos pelo amanhã. O amanhã terá seus próprios cuidados. O homem que vive constantemente antecipando o futuro perde a graça do presente. Quantas bênçãos presentes sacrificamos por preocupações futuras que talvez nunca aconteçam? Trabalhamos hoje para garantir o amanhã, mas o amanhã continua sendo uma dádiva que não podemos comprar. Portanto, trabalhemos com diligência, mas não com escravidão. Façamos planos, mas não façamos do planejamento um substituto para a confiança em Deus. 
 
    Economizemos, mas não transformemos a segurança financeira em nossa segurança espiritual. Busquemos prosperidade, mas não permitamos que a prosperidade nos roube aquilo que nenhum dinheiro pode devolver. Porque o tempo perdido não pode ser depositado novamente no banco. O dinheiro pode voltar. Uma oportunidade pode surgir outra vez. Uma propriedade pode ser reconstruída. Mas a tarde de ontem não volta, a infância dos filhos não volta, a juventude não volta e o dia que Deus colocou em nossas mãos jamais será devolvido. Que grande mordomia, então, é o tempo! 
 
    Não somos donos absolutos dele; somos administradores. E todo administrador sábio pergunta: “Como posso empregar melhor aquilo que meu Senhor colocou sob minha responsabilidade?” Talvez seja necessário trabalhar menos algumas vezes. Talvez seja necessário dizer “não” a algumas coisas. Talvez seja necessário abandonar uma preocupação que não podemos resolver. Talvez seja necessário fechar o computador, desligar o telefone e sentar-se à mesa com aqueles que amamos. Talvez seja necessário simplesmente olhar para o céu e agradecer. Não porque o trabalho seja insignificante, mas porque a vida é maior do que o trabalho. 
 
    Quando chegarmos ao fim de nossos dias, não seremos avaliados apenas pelo número de horas que permanecemos ocupados. Haverá perguntas mais profundas: fomos bons pais? Bons amigos? Bons companheiros? Fomos gratos? Fomos generosos? Cuidamos da nossa alma? Usamos nossos talentos para servir? Fizemos o bem quando tivemos oportunidade? E, sobretudo: vivemos diante de Deus ou apenas diante das exigências deste mundo? 
 
    Que o Senhor nos ensine a contar os nossos dias, não para ficarmos angustiados com sua brevidade, mas para aprendermos a usá-los com sabedoria. Trabalhemos enquanto temos forças. Descansemos quando for necessário. Amemos enquanto temos oportunidade. Sirvamos enquanto temos tempo. E quando a noite chegar, possamos deitar a cabeça sobre o travesseiro com a consciência tranquila, dizendo: “Hoje fiz o que estava ao meu alcance. Trabalhei com diligência, amei com sinceridade, descansei com gratidão e entreguei o restante nas mãos de Deus.” Pois feliz é o homem que não precisa chegar ao fim da vida para descobrir que viver não era a recompensa que receberia depois de trabalhar; viver era o próprio dom que Deus lhe concedia enquanto trabalhava. 
 
Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense

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