Quando se afirma que Deus fez todas as coisas boas, não se fala apenas de montanhas e rios, de árvores e estrelas. Fala-se também da carne e do sopro humano, dessa centelha que arde em cada olhar. Ser feito à imagem e semelhança do Criador é carregar no íntimo um reflexo de eternidade, um selo que não pode ser apagado.
A ciência, por sua vez, revela-nos que viemos de uma mesma raiz. Somos ramos de uma árvore antiga, cujas ramificações se espalham em cores, idiomas e culturas, mas que se alimentam da mesma seiva. Ancestrais comuns, é o nome técnico. Irmandade universal, é o nome mais verdadeiro.
Que contraste, então, com as vozes que tentaram justificar correntes, açoites e humilhações, inventando monstros conceituais como o de seres "meio homens, meio animais". Nada poderia ser mais dissonante. Nem a fé admite tamanha distorção, pois vê em todos a imagem de Deus; nem a razão, que reconhece a unidade do humano no espelho da biologia.
Toda tentativa de reduzir alguém à condição de objeto, de coisa, de “menos que humano” é uma traição à realidade. É como fechar os olhos ao sol e dizer que a noite reina. O erro não está no outro, mas no olhar que se turva pelo desejo de dominar.
Se tudo o que Deus fez é bom, também o ser humano o é em sua raiz. A pluralidade das formas, das peles, das vozes, não nos divide, mas nos enriquece. O que há de diferente em cada um é variação da mesma melodia.
Negar a humanidade do outro é, no fundo, negar a si mesmo. Pois na origem partilhamos o mesmo barro, e no destino aguardamos o mesmo sopro. A verdadeira sabedoria não ergue muros, mas reconhece, em cada rosto, a unidade que nos habita.
Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense

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