segunda-feira, 5 de outubro de 2026

A perigosa tentação do narcisismo

    Há quem caminhe pelo mundo como se os espelhos fossem janelas abertas para a eternidade. Confunde a própria imagem com destino, a própria vontade com lei, e o próprio desejo com verdade. Mas o narcisismo é uma torre erguida sobre areia fina: basta a primeira noite de silêncio para que as paredes escutem o eco do vazio. 
 
    Pensar contra o narcisismo é reaprender a dimensão da queda. É recordar que todo rosto soberbo também envelhece diante das horas, que toda voz que se julgou definitiva um dia vacila diante do escuro, e que nenhuma vaidade consegue impedir o lento trabalho do tempo sobre a carne e sobre os sonhos. 
 
    Existe uma tentação perigosa nos homens que esquecem a mortalidade: a de acreditar que podem tudo porque já não se lembram da dor. Esquecem o tormento das madrugadas insones, o peso das despedidas, os nomes apagados das lápides, os corpos curvados pelo cansaço invisível da existência. 
 
    A verdadeira sabedoria não está em subir acima dos outros, mas em conservar a memória das próprias ruínas. Porque quem se recorda das horas mortais aprende a falar mais baixo, a ouvir mais profundamente, e a perceber que a grandeza humana não nasce do brilho do ego, mas da humildade de saber-se passageiro sob o céu infinito. 
 
Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense

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