Há quem caminhe pelo mundo como se os espelhos fossem janelas abertas para a eternidade.
Confunde a própria imagem com destino, a própria vontade com lei, e o próprio desejo com verdade.
Mas o narcisismo é uma torre erguida sobre areia fina: basta a primeira noite de silêncio para que as paredes escutem o eco do vazio.
Pensar contra o narcisismo é reaprender a dimensão da queda. É recordar que todo rosto soberbo também envelhece diante das horas,
que toda voz que se julgou definitiva um dia vacila diante do escuro,
e que nenhuma vaidade consegue impedir o lento trabalho do tempo sobre a carne e sobre os sonhos.
Existe uma tentação perigosa nos homens que esquecem a mortalidade:
a de acreditar que podem tudo porque já não se lembram da dor. Esquecem o tormento das madrugadas insones,
o peso das despedidas,
os nomes apagados das lápides,
os corpos curvados pelo cansaço invisível da existência.
A verdadeira sabedoria não está em subir acima dos outros,
mas em conservar a memória das próprias ruínas.
Porque quem se recorda das horas mortais
aprende a falar mais baixo,
a ouvir mais profundamente,
e a perceber que a grandeza humana não nasce do brilho do ego,
mas da humildade de saber-se passageiro sob o céu infinito.
Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense

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