A reflexão sobre o sentido da vida, quando atravessada pela teologia bíblica, encontra em Eclesiastes uma de suas expressões mais inquietantes e honestas. Ali, a existência humana não é romantizada nem suavizada, ela é exposta em sua repetição, em sua transitoriedade e, sobretudo, em sua aparente falta de sentido.
O autor, tradicionalmente associado a Salomão, inicia com uma declaração que ecoa como um golpe contra todas as ilusões: “Vaidade de vaidades, tudo é vaidade.” A palavra hebraica hevel, traduzida como “vaidade”, carrega o sentido de vapor, sopro, algo que se dissipa. A vida, nesse horizonte, é fugaz, escapa das mãos, não se deixa fixar.
A teologia de Eclesiastes não parte de certezas confortáveis, mas de uma experiência radical: o homem busca sentido no trabalho, no prazer, na sabedoria, nas riquezas, e tudo isso, isoladamente, revela-se insuficiente. O sábio observa que o justo e o injusto têm o mesmo destino; que o esforço humano não garante permanência; que o tempo corrói todas as obras. Há, portanto, uma espécie de crise do sentido inscrita na própria estrutura da vida “debaixo do sol”.
Entretanto, o livro não conduz ao desespero absoluto, mas a uma forma mais sóbria de compreensão. Se tudo é transitório, então o sentido não pode ser encontrado na tentativa de eternizar o que é passageiro. A teologia de Eclesiastes desloca o olhar: não se trata de controlar a vida, mas de recebê-la.
Nesse ponto, emerge uma intuição fundamental: a vida é dom. Comer, beber, alegrar-se com o fruto do trabalho, essas experiências simples são apresentadas como dádivas divinas, não como conquistas definitivas. O sentido, portanto, não está na acumulação ou no domínio, mas na capacidade de reconhecer a graça no instante.
Ao final, a conclusão parece condensar toda a tensão do livro: “Teme a Deus e guarda os seus mandamentos, porque isso é o dever de todo homem.” O temor, aqui, não é medo servil, mas reconhecimento da transcendência, a consciência de que a vida não nos pertence plenamente, de que há um mistério que nos excede.
Assim, a pergunta “por que vivemos?” não encontra em Eclesiastes uma resposta sistemática, mas uma reorientação profunda. Vivemos não para dominar o tempo, mas para habitá-lo com reverência. Não para garantir sentido absoluto, mas para acolher, com humildade, aquilo que nos é dado.
A vida, sob esse olhar, é um sopro, mas um sopro que vem de Deus.
E talvez o seu sentido não esteja em durar para sempre,
mas em ser vivido com consciência, gratidão e temor,
sabendo que, mesmo em sua brevidade,
ela participa de um mistério que a ultrapassa.
Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense

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