Existe um tipo de tolo que não tropeça. Ele caminha com firmeza, convicto, erguendo a cabeça como quem acredita ter encontrado o centro do mundo. E, no entanto, esse centro é vazio.
Os deuses não zombam daquele que erra por ignorância, mas daquele que se julga inteiro sem jamais ter se atravessado. Porque não há tragédia maior do que viver à superfície de si mesmo, como um reflexo que nunca ousa olhar para a água.
O verdadeiro tolo não é o que desconhece o mundo, é o que desconhece o próprio abismo. Ele ri alto para não ouvir o eco de suas faltas, constrói certezas como muros para não encarar as ruínas que carrega dentro.
E assim, os deuses assistem.
Não com ira, mas com um certo desdém silencioso, quase piedoso. Pois sabem que esse homem já está condenado: não pela força do destino, mas pela recusa em se encontrar.
Conhecer-se é um risco, é rasgar o véu, é descobrir que dentro de si habitam monstros, desejos indizíveis, contradições sem nome. Mas é também o único caminho para não ser joguete das próprias sombras.
O tolo foge disso.
Prefere a ilusão confortável de ser um só, de ser coerente, de ser “bom”, de ser “certo”. E é exatamente aí que começa sua ruína lenta, invisível, inevitável.
Porque aquele que não se conhece não governa a si mesmo.
E aquele que não governa a si mesmo... já pertence ao caos.
É bem provável que seja por isso que os deuses riem.
Não de crueldade, mas de reconhecimento.
Pois veem, naquele que não se conhece,
um ser que abriu mão de ser humano
para tornar-se apenas destino.
Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense

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