sábado, 23 de maio de 2026

O desconhecido

    Existem coisas mínimas atravessando o mundo agora. Pequenas vidas de poeira, rachaduras silenciosas no cimento, insetos invisíveis dobrando esquinas enquanto os homens discutem impérios. O universo talvez não se esconda nas estrelas, mas nesses fragmentos desprezados que sobrevivem à arrogância humana. 

    Os olhos modernos aprenderam a enxergar apenas o que brilha. Os óculos poluídos da pressa, da vaidade e da utilidade transformaram a existência num catálogo de coisas importantes demais para notar o que rasteja rente ao chão. E, no entanto, são justamente as miudezas que sustentam o peso secreto do mundo. 

    Tem uma filosofia inteira vivendo nos cantos úmidos das cidades. No musgo agarrado ao muro velho. Na formiga que insiste em carregar um corpo maior que ela. No papel amassado dançando sozinho pela rua vazia. Na ferrugem que lentamente devolve o metal à terra. 

    Talvez a verdade não fale alto. Talvez ela apenas se arraste pelas esquinas, tímida, encoberta pela fumaça das opiniões grandiosas. Os homens inventaram teorias para explicar o infinito, mas esquecem de contemplar a dignidade silenciosa das pequenas permanências. 

    Existe algo de profundamente humano em ignorar o ínfimo. Porque admitir a importância do quase invisível é aceitar que também somos pequenos. Somos criaturas microscópicas tentando parecer monumentos diante do tempo. 

    E mesmo assim, as coisinhas continuam. Persistem sem aplauso, sem discurso, sem fotografia. Vivem atrás das lentes embaçadas da civilização, esperando alguém capaz de retirar os óculos poluídos e perceber que o mundo verdadeiro talvez sempre tenha morado nos detalhes que ninguém quis amar. 

Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense

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